Gus voltando a ativa. Válvula de escape pra usina né?
Pelotão de assalto
Óculos sujos e olhos cansados de tanto ler mas ainda sem vontade de dormir, acionou o CD player sem lembrar o que havia no carrossel com três vagas redondas dizendo 1, 2, 3, em baixo-relevo. Começou com um samba de Chico Buarque. Samba triste e bonito pacas. "Quando de uma vez por todas eu me for/ E o silêncio me abraçar / Você sambará sem mim...". Ficou dividido entre pensamentos mais ou menos sombrios de morte, de fim, e outros acolhedores e alaranjados e quentinhos como as manhãs dominicais da infância no Bom Fim do final dos anos 70 e naquele outro Bom Fim do início dos anos 80. Quedou-se fascinado por uma certeza simples, cristalina e recheada de clichês: há beleza nisso, nessa região limítrofe entre a tristeza obtusa e felicidade em estado bruto. Ou será que uma coisa não serviria de antônimo à outra? Há tanta beleza nas coisas que inicialmente parecem cinzentas, encruadas de pessimismo. Enquanto Chico ia cantando, ele pensava nessa idéia de fim e, sabe-se lá por quais associações, lembrou de um verso de Vinícius, no poema "O haver", achava que era isso, em que cada sentença começa com a palavra "resta" e lá pelas tantas ele dizia (Vinícius dizia, sim, porque ele tinha fresca na memória auditiva a voz do poeta declamando, num outro CD emprestado por colega), mais ou menos assim: "Resta este coração ardendo / Feito círio esquecido/ Numa catedral em ruínas". Sempre resta. E também sempre existirá algo em haver. Foi nesse ponto que chegou o sono. Não como chegam as visitas, educadamente. Foi mais o assalto de um pelotão de soldados morrendo de medo e armados até os dentes. Caiu traspassado por esses fuzis que lhe turvaram a visão. Caiu ali mesmo, no tapete persa levemente puído. Com samba nos ouvidos. Com a infância na memória. Com um círio no coração.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
quinta-feira, julho 28, 2005
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7 comentários:
Quase sempre é uma válvula, sim, Tali. Esta história eu havia rabiscado há uns dois dias nas costas do talão-de-cheques. Não a história toda, claro, mas umas duas frases, o suficiente para não perdê-la. Ficou assim. Diferente do que eu de ordinário faço.
Então vamos nos ligar. Temos ido, à sinuca, aliás, uma turma divertidíssima e variável, toda semana. Aviso de antemão: Com o Max, o Jean e o Dé (primo do Gus), fica meio sem graça...
Gus, ficou diferente do teu usual sim, com certeza, mas igualmente encantador. Pra variar, me tocou. E o comentário aqui, não vai acompanhado dos detalhes.
Vocês sempre tocando as pessoas, dupla dinâmica! Sobre este texto, acredito que restos e haveres nos acompanham a vida toda. Das tristezas sombrias às doces alegrias alaranjadas, nosso trilhar volta e meia sempre abana pra elas. A mudança se vale do caos. Ainda bem que existe um círio pra nos manter aquecidos durante a tempestade.
Belinha, acho que a moça é a Joana. Acertei?
Dnimuller, tnk's pela dica do vinho. Vou comprar, sim. Abraço,
O texto, tocante como sempre!
bjos!
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