Devaneios, alguma literatura e desabafos...

quarta-feira, agosto 03, 2005

Lembram da história do homem que precisava encontrar uma Valquíria? Pois ele está aí, novamente.


Receio das mãos

Sempre que me perguntam se o gato comeu minha língua, explico que sou um sujeito quieto. Só. E devo aplicar essa sentença minguada com cara feia e mastigando as quatro palavras porque, geralmente, dá certo e meus eventuais admoestadores vão logo se mandando, entre aparvalhados, desiludidos e assustados. Foi assim que fiz três bonecas desistirem de papo comigo. Precisava de silêncio e concentração. De uma mesa lá do fundo do Alfredo, bebendo Coca Light de canudinho, eu observava uma moça sentada bem à porta. Só podia ser Valquíria. Dava pra notar perfeitamente a artificialidade dos seus modos, a semi-elegância adquirida havia dez minutos, os dentes brancos demais, o cabelo liso demais, a espinha ereta demais. Uma moça recauchutada às pressas e adestrada por professores de boas maneiras e gramática. Não
combinava com o Afredo, principalmente àquela hora. Era melhor eu entregar logo a caixinha, conforme me pedira Teobaldo. Cheguei a me erguer levemente da cadeira mas, sei lá por que, lembrei das minhas unhas pretas de terra e das mãos esfoladas pelo cabo da pá e da camisa assoalhada e dos cabelos desgrenhados e senti vergonha. Enquanto eu me dava um trato no banheiro, lavando rosto e pescoço, esfregando as unhas, pensei que tinha de mudar de vida. E logo lembrei das dezenas de domingos em que eu sentava num banco da Redenção, comendo churros, e abria os classificados e decidido a encontrar qualquer emprego que não fosse o meu. Mas, nesses domingos, um diabinho sempre aparecia flutuando sobre o meu ombro esquerdo dizendo "vai arrumar
emprego pra quê? Pra ganhar por um mês de trabalho menos do que você arranja num único serviço?". Então eu jogava os classificados no cesto do lixo reciclável, o churros no lixo orgânico e esperava uma nova encomenda. E sempre havia. Teobaldo ainda estava quentinho e eu já precisava começar outra campana que teria de finalizar em uma semana. Estava pensando na arquitetura dessa nova tocaia quando deixei o banheiro do Alfredo, sacando o estojinho de alianças do bolso. Se fosse mesmo Valquíria, não estava mais lá. Corri à porta.

3 comentários:

Anônimo disse...

Só pra constar nos autos, pessoal: apesar da possibilidade dessa história ser consumida tipo prato único, sem entrada, sua, digamos, primeia parte está nos arquivos do Trespalavrinhas. Chama-se "Encontro com Valquíria". Tá?

Anônimo disse...

Quer limpar a sujeira das unhas mas não consegue limpar a da alma...

Pree disse...

Como sempre uma Graça!

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