Sexus é um selinho
Estou lendo “Sexus”, que Henry Miller publicou pela primeira vez em 1949. Por uma das minhas tantas falhas curriculares, é com muito atraso que o faço. Mas o faço com tanta satisfação... Depois de cinco páginas, menos de 1% da obra, constatei o que milhões antes de mim tinham concluído: havia mais que papel e tinta naquele pesado volume.
Um dos homens mais inteligentes e cultos (no melhor sentido da expressão da qual não gosto muito) que já tive o prazer de conhecer, Fernando O’Donnell, assegura que há no mundo somente três categorias de escritores: os simples contadores de histórias, os defensores de idéias, os tecelões do estilo. Sei que pode parecer um raciocínio simplista, dito assim, a seco. Mas, garanto, não é nenhuma bobagem.
Sinceramente não imagino em qual categoria do Sistema O’Donnell de classificação devo incluir Miller, norte-americano mais ou menos troglodita superverborrágico, nascido na Nova York de 1891 e que, miraculosamente - considerando sua vida de constantes e abrangentes excessos - , morreu pouco antes de completar 90 anos, na casa em que vivia em Pacific Palisades.
Sua literatura explode em torrentes numa força de rasgar retinas, e daí já ter sido comparado (perdão aos puristas...) com o também norte-americano W. Faulkner, pouca coisa mais antigo, pelos chamados fluxos de consciência. Também já foi considerado pornográfico. E não se pode negar que, no mesmo grau de contundência, ele apresente um bom quadro histórico dos costumes sociais constatados nos períodos em que se passam suas histórias. Com tudo isso, ainda engendra reflexões filosóficas profundas, faz apologia ao sarcasmo como arma necessária para que o leitor reconheça e com ele enfrente os absurdos da condição humana.
Sem toda aquela bossa da erudição francesa, claro, Miller não deixa de ser um tantinho Albert Camus ou Jean-Paul Sartre. “Sexus” é o primeiro volume da trilogia “A crucificação rosada”, escrita entre o final dos anos 40 e o final dos anos 50. Cada um dos três tijolos de Miller, esse bom velhinho, tem umas 600 páginas que passam rápida e suavemente como o primeiríssimo selinho trocado entre duas crianças: é forte, sincero, delicioso, fácil e faz com que a vida nunca mais seja a mesma. Numa expressão, uma obra de arte.
Deixo aqui umas pitadas de Miller, que recomendo aos amigos. E aos inimigos também.
“A coisa mais importante para o gênio é tornar-se inútil, ser absorvido pela correnteza comum, voltar a ser mais um peixe, e não uma aberração.”
“Ninguém jamais escreve o que pretendia dizer: a criação original, que está ocorrendo o tempo todo, quer a pessoa escreva ou não, pertence ao fluxo primal: não tem dimensões nem forma, nem obedece ao tempo.”
“A palavra, como as correntes oceânicas profundas, precisa subir à superfície por seu próprio impulso. A criança não tem necessidade de escrever, é inocente. O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas assim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. Ninguém escreveria uma palavra sequer se tivesse a coragem de viver aquilo em que acredita.”
Como diz o Gaguinho, nas madrugadas do canal 46, por enquanto é só, pessoal.
G.M.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
terça-feira, agosto 16, 2005
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Arquivo do blog
- fevereiro (3)
- janeiro (1)
- julho (1)
- abril (1)
- março (1)
- fevereiro (3)
- dezembro (2)
- outubro (2)
- setembro (1)
- agosto (1)
- maio (6)
- fevereiro (2)
- janeiro (6)
- dezembro (4)
- novembro (1)
- outubro (8)
- setembro (5)
- agosto (5)
- julho (6)
- junho (5)
- maio (3)
- abril (5)
- março (4)
- fevereiro (4)
- janeiro (4)
- dezembro (1)
- novembro (7)
- outubro (3)
- setembro (5)
- agosto (8)
- julho (8)
- junho (11)
- maio (12)
- abril (12)
- março (15)
- fevereiro (14)
- janeiro (21)
- dezembro (15)
- novembro (22)
- outubro (15)
- setembro (19)
- agosto (16)
- julho (10)
- junho (17)
17 comentários:
Esqueci de contar, a quem eventualmente se interessar por Henry Miller, que depois de "Sexus"(1949) vêm "Plexus"(1953) e "Nexus"(1959). É a composição completa da trilogia "A Crucificação Rosada". Tá?
Gus! Tu é lindo viu? Por dentro e por fora. Esquece completamente a tua auto-avaliação no telefone agora demanhã...
Este último trecho do Miller diz muita, muita coisa. É lindo. Mas Gus, nunca pensaste em qual das categorias descritas pelo O´Donnell te enquadras?
Juky,
Eu até hoje produzi um único romance, que tentei publicar muitas vezes e jamais tive sorte. E o resto não considero como obra pronta, mas uma espécie de treino, sabe? Então, tendo este único romance como amostra, não sei dizer, não, em qual das três categorais eu me enquadro. Se bem que escrevo sistematicamente há uns 15 anos e já dava pra ter uma opinião... Bem, não sou um escritor de idéias propriamente dito, isto é certo. Eu seria o quê? Sua pergunta será meu pensamento do dia. Tá?
Belinha,
O que você pretende fazer com o Miller eu farei logo-logo com a trilogia do Sartre, que também li menino demais, principalmente o primeiro tomo, "A Idade da Razão", fase em que, coincidentemente, agora me encontro. Agora vou lá na Farsa. Bj.
Tali, só posso dizer: tnks. Bj.
Beleza Gus, já que perdemos nossa inocência de criança há tempos, resta-nos pensamentos e palavras para buscarmos respostas às nossas dúvidas... estou certa?
Mas esse GM,é bom mesmo,hein?!
GM,acompanho seu trabalho há um bom tempo.É impressionante sua superação. Parabns!
Esses livros são bons mesmo. Putaria branca. Vale Anais Nin na sequência, pouco mais depravada que Henry Miller. Esses dois escritores são responsáveis por um dos melhores filmes eróticos que vi na minha vida: Henry & June.
Caro Anonymous,
Obrigado pelas gentilezas, sinceramente. Espero que um dia você possa ler meu romance "Sob o céu de agosto", caso eu consiga publicá-lo. Saiba desde já que suas considerações me serão muito caras. Abraço,
Si,
O filme é bom pra chuchu mesmo. Ao ler seu comentário, tive até vontade de revê-lo. E há uma curiosidade que nem sempre conta muito: o ator é superparecido com Miller real. Madame Nin, aquela sacana, lerei mais adiante. Bj,
Juky,
Sua última consideração, como a primeira, é muito complexa para quem tem nas veias tanto sangue português como eu. Vou pensar melhor, tá? Bj,
Bom Gus, sou um homem que não costuma escrever, portanto, sou envenenado, hahaha. Estou me puxando e lendo o livro q vcs indicaram/emprestaram.
Recebeu uma "encomenda" do Deca?
Abraços
Recebi sim, seu sacana. Está perfeito, uma obra-prima. Não faltou nem a roupinha de veado do Zorro, né? Sobre leitura... Eu já achei que ler era mais fundamental o que acho hoje. Talvez eu continue mais por cacoete. Não sei se ajuda, se melhora a vida de alguém. Mas é bom e, disto tenho certeza, é melhor que não ler. Mantenha contato, tá? Aquele abraço,
Mantenho contato.
Câmbio! Desligo!
Esta diversidade Dni, é que é bacana. Comigo ocorre justamente o contrário: é muito comum que eu descubra filmes por conta dos romances/conto/novelas/peças que serviram de base ao roteiro. Esse assunto, como você diz, dos segredos sobre nossas fontes cerebrais, é riquíssimo e rende horas de bom papo. Vamos fazer isso logo na sua volta, ok? Bom fim de semana pra você também, camarada. Abç,
Esta diversidade Dni, é que é bacana. Comigo ocorre justamente o contrário: é muito comum que eu descubra filmes por conta dos romances/conto/novelas/peças que serviram de base ao roteiro. Esse assunto, como você diz, dos segredos sobre nossas fontes cerebrais, é riquíssimo e rende horas de bom papo. Vamos fazer isso logo na sua volta, ok? Bom fim de semana pra você também, camarada. Abç,
Postar um comentário