Devaneios, alguma literatura e desabafos...

quinta-feira, setembro 22, 2005

Escalas de cristal líquido
Aos que nunca foram apresentados a Bill Evans, recomendo o CD Piano Player. A quem já o conhece, recomendo também. Não se trata de coletânia. É uma compilação (Sony/Columbia) caprichada com pelo menos uma pincelada de cada fase da carreira de Evans. Acompanha o encarte biografia sintética porém precisa, com fotos riquíssimas. Feitas essas considerações objetivas...

Faixa 9, som na caixa

Foi com Piano Player que encerrei a jornada de ontem. O gesto despretensioso de escutar um CD pode tornar dias comuns em especiais. E mais: aponta a certeza de que todos os dias, por mais comuns, podem ser especiais. A gema bruta está sempre lá, pronta a ser tornada jóia única. E se é assim, não há nada comum o bastante que não possa ser especial. Assim como nada deveria ser considerado tão especial que não possa ser contemplado no mais ordinário dos dias. Era nisso que eu pensava, não necessariamente nesta ordem.

Acomodado à mesa da sala, sob a lâmpada mais forte da casa, fizera uma pausinha na leitura e ficara olhando feito idiota para o quadro à minha frente, uma perspectiva interessantíssima de Suzana Sommer. Olhava Sommer, escutava Evans, sem esperar nada daquilo.

Foi na faixa 9, “Comrade Conrad”, que tudo ficou melhor. Mais fundo, intenso e, ao mesmo tempo, simples, sereno. Quedei-me absorto naquelas impressões auditivas que me sugeriam cenas e percepções táteis, imaginando as mãos brancas de dedos longos e magros de Evans fazendo seu serviço misturando a mecânica de ursos adestrados e neuróticos de um circo antigo com o quê virtuoso de seu coração que bombeava e seu cérebro enxergava claves e notas e compassos e símbolos ordenados em caderno pautado em cinco linhas e ele inteiro reproduzia aquelas escalas de cristal líquido. Bom se Evans fosse meu avô, pensei, enquanto os sons se sobrepunham em abandono e desespero e alegria como que a supurar por excesso de ânimo. Uma celebração de vitalidade de manhã ensolarada no Bom Fim da minha infância. Sim, ele sempre volta, esse Bom Fim que jamais ficará amarelado. Sextas diminutas, sétimas justas, nonas e sétimas etc. Acorde sobre acorde. Oito pianos em um só. Era como mergulhar numa piscina deliciosamente azul. Um azul tão puro que chega a ter gosto de azul puríssimo. Submersão translúcida, incondicional. Eu mergulhava mais e mais, sem riscos, com vontade de sobra. Não me atemorizava a profundidade, eu fora abruptamente dotado de guelras generosas. Apenas as escalas refrescantes e cristalinas de Evans passeando pelo marfim entrecortado de sinalizações negras.

Ainda anestesiado pela experiência Evans, escutei mais dois bons discos, enquanto escolhia o próximo livro da fila. Celebrei esse dia comum com mais um cálice de um malbec razoável, quase um malbequinho cuja pequenez não me reduziu a glória, sentindo ainda os efeitos do tempo em que passara debaixo d’água como o Príncipe Submarino numa versão para piscina. Senti-me molhado pelo mergulho. Cheguei a temer pelo carpete.

Mergulho nessa piscina há tempo. O que já é outra conversa.

G.M.

17 comentários:

Anônimo disse...

Gus!
Saudade de te ler aqui! Apesar de te ter em corpo presente todas as tardes...Não pára mais tá? Sinto falta dos teus devaneios...Beijo

Anônimo disse...

Post do Gustavo e eu fico sem saber como tu tá, linda...

Anônimo disse...

É, Dani, tinha alguma coisa de Barcelona, mesmo. E gostei da "fidelização". Sem sacanagem, é expressão pra poucos. Bem sacado. Muito bom. E gostei da cinedica, também, com a Penelope. Aquele abraço,

Anônimo disse...

dnimuller,
Sem problemas. Mas só abandono os comentários quando a linda a qual eles se referem me parecer incomodada. Acho que não é o caso. Até porque sei que ela é curiosa..

Anônimo disse...

dnimuller,
Sem problemas. Mas só abandono os comentários quando a linda a qual eles se referem me parecer incomodada. Acho que não é o caso. Até porque sei que ela é curiosa..

Anônimo disse...

grande GUS.

Você sabe que não costumo ler muito (nada, na verdade), mais o que me interessa, principalmente na web, leio, e muito.
Apesar do pouco contato que tivemos, tenho saudades de vc, talvez a distância, talvez o rompimento, sei lá.
Bom ler você novamente. Como você me pediu um dia, por este blog, peço o mesmo, ..., não some, dê notícias.
E vai treinando na sinuca, ok?
Um grande abraço, dos estates.

Anônimo disse...

Ai, Dani! Tô cansando da brincadeira, sabia? Como disse num outro comentário, prefiro pessoas reais às virtuais, e com nome e sobrenome e viscerais e até o fim. Entende?

Anônimo disse...

Taline
Não cansa não. Tá no fim. Te prometo.
E ao amigo digo que conheço ela muito além disso. Sonho com o cheiro dessa mulher.

Anônimo disse...

Êta! Esquentou a chapa! E com declarção extraída de letra do Wando e tudo! Muito bonito!

Anônimo disse...

Max,
Espero que as coisas estejam bacanas nos EUA. Estou te devendo um e-mail, né? Mandarei. Deixa eu adiantar uma coisa: eu hoje acho que esse negócio de leitura não é muito importante, não. Sério. Eu mesmo faço mais por cacoete. Mande um e-mail pro meu g.machado@correiodopovo.com.br que eu te respondo, tá? Aquele abraço,

Anônimo disse...

Não fechei minha noite com um cálice de tinto (como o suplico, unzinho somente!) mas com um danoninho (sim, aquele que vale por um bifinho) ouvindo a sugestã do Sr. G.M. - muito boa por sinal. E a sugestão do Dani do filme "Não se Mova" é boa, mas o filme é pesado e conseguiram deixar a lindíssima Penélope horrorosa. O que não tira nenhum crédito da história. É um peso na alma que vale a pena. Acho que vou sabotar a adega aqui da casa, depois que as crianças dormirem - andam comentando à boca pequena que meu novo apelido é "mãezinha", ora vejam só...

Anônimo disse...

observando alguns comentarios, pricipalmente de cinema, me permito indicar, e espero respostas, o filme "os edukators", filme alemão de uma safra nova e boa. aguardo comentarios de gente com capacidade para isso ja que conheço alguns do integrantes desta pagina.

Anônimo disse...

Bom, fotógrafo amigo restringe bastante o leque de possibilidades. Porém, tô bem cansada de tentar adivinhar os não identificados. Vamos ao Edukators. Filme do cineasta alemão Hans Weingartner. Assisti no cinema. Trata de diferenças sociais sem cair no lugar comum e ficou longe de ser panfletário. Não coloca nenhum dos personagens na pele de bandido ou de mocinho. Mostra a realidade de cada um deles, as fraquezas e a força. O filme consegue brincar com nossos preconceitos e ainda apresenta um final surpreendente. Em tempo: Não posso esquecer da trilha, que é boa. Acho que é isso. Sendo breve, óbvio.

Anônimo disse...

Caro Um Fotógrafo Amigo, como você há muitos, felizmente. Tenho uma porção de bons amigos que também são bons fotógrafos. Cada um é especial ao seu modo. Não se identificando, porém, você abre mão dessa faculdade de ser único pra ser como muitos. Ainda não vi o filme, do qual a Tali gostou muito (acho que ela escreveu sobre isso aí acima). Li coisas boas a respeito e ele está na minha listinha. Tnk pela dica, aquele abraço,

Anônimo disse...

sabia que poderia contar com os amigos,tali concordo contigo uma boa leitura do filme, , mas eu perdi um pouco da trilha quanto ao final acho que apresenta pelo menos duas possibilidades , mas isso é uma discussão que não pode ser feita agora pois o gustavinho ainda não viu, e como preservo esta amizade não farei isto, e seguindo nesta area, tem outro filme que vi que me pareceu que ele deveria ser mais bebido do que visto, "sideways", bos toques sobre vinhos, no mais um abraço do amigo de sempre. marcos, assim fica melhor não, tali..

Anônimo disse...

Melhor sim, Marcos. E Dani, fiquei louca pra ver o La Niña Santa, que estréia hoje. Beijo

Anônimo disse...

Filmes, rsrsrs
estou pra mais para HARRY POTTER, ..., uma vez que aqui estou assistindo tudo em inglês (claro que com legenda em inglês para me ajudar, pois meu ouvidinho não se acostumou ainda).
Beijos e abraços.
ps.: Gus, vou escrever.

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