Devaneios, alguma literatura e desabafos...

quinta-feira, outubro 27, 2005

Truculência e humanismo

Depois do acidente, uma das coisas mais reconfortantes para L. é a presença dos amigos de verdade. Uma ajuda para manter-se vivo e com a certeza de que seu rosto de rapaz bonito, sua conhecida lealdade e senso de humor e sagacidade e carisma estão mais fortes do que nunca. Ele pensava nisso naquela terça-feira à noite. Fora ao supermercado com um sujeito cuja generosidade se equivalia à sua. Vamos chamar esse amigo de L2 porque é um pouquinho mais novo que L. Trata-se de um cavalheiro que não chega à casa dos amigos sem um presentinho e também um bárbaro sanguinário na defesa dos seus. Um sujeito íntegro que exercita discretamente sua grandiosidade. Nessa noite, L. deslizava pelo chão lisinho dos corredores desse supermercado na companhia de L2. Feitas as compras da semana, foram ao caixa para deficientes e gestantes e idosos. Uma grávida saltou, dedo em riste para o carrinho recheado com as compras de L. e, depois, para uma pequena placa secundária pendurada no teto por correntinhas metálicas: de forma confusa, o caixa especial também era indicado para compras mínimas. “Tem mais de dez itens aí.”, ela denunciou. L2. rebateu. “Não está vendo?”, disse, furioso, apontando para a cadeira de rodas do amigo L. A mulher viu que era tarde para reparar a grosseria. Ou talvez nem tenha pensado em reparar coisa alguma. “Mas eu estou grávida!”, esbravejou, tentando ainda passar à frente dos dois. Então, num gesto delicado porém incisivo, L2. a barrou conduzindo o amigo ao caixa. Aproximou o rosto da mulher como se fosse beijá-la e sussurrou, com a fúria de um padre que tenta demover um mau espírito de suas diatribes. “Pense. Daqui a nove meses, seu filho pode nascer assim. Daqui a 20 anos, ele e um amigo podem encontrar uma mulher como você numa fila assim. Talvez essa mulher do futuro não seja tão desumana”, e foi fazendo a pista.

PS: esta é uma história real. Qualquer semelhança com literatura ficcional é mera coincidência. Por não se tratarem de fatos imaginários, não consegui escrever com a qualidade que os bons Ls merecem. Como dizia uma antiga colaboradora, não pude “dar tudo de si” porque me saio melhor, ou pelo menos fico mais à vontade, com as histórias que invento.

G.M.

4 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei puta com isso, Gus! Até porque sei bem quem são os Ls em questão. Pessoas lindas (dos dois lados) e incríveis e com o coração do tamanho do mundo. Ô como tem gente mesquinha e burra à solta por aí. Fazer o quê? Acho que não tenho mais paciência pra tentar torna-lás melhores...

Anônimo disse...

Pois é, também fiquei puto. Os Ls são caras grandiosos circulando nesse cotidiano cada vez mais sacana, rico em crocodilagens e golpes baixos. Mas o L2 deu uma resposta à altura da gestante medonha. O negócio, como dizia aquele radialista, é: "não te mixa!". Né?

Anônimo disse...

Engano seu Tititit, vc é muito bom em tudo que faz(aiaiai, nada de interpretações erradas,ok)
Beijos e + Beijos

Anônimo disse...

Lado positivo:
o L2 pode ter "salvo" uma vida.

Abraço GUS.

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