
Ufa! Que alívio! - O presidente Lula me restituiu a esperança. Ele conhece a verdade. Ele vela o nosso sono. Ele sabe o que é bom pra todos nós. Fui convencido de que seu egocentrismo é justo pela sua grandiosidade. Ele é o meu pastor. Nada mais me faltará.
Redenção - Coisa boa gastar duas horas assistindo TV, ontem à noite. Raras vezes em toda a vida lembro de ter empregado tão bem o meu tempo. Desliguei o aparelho tomado pelo mais profundo ufanismo. A única diferença entre Brasil e Bélgica é o tamanho. Que felicidade viver num país em que o presidente da República é um homem tão sereno, cuja palavra reconforta e mesmo acaricia a choldra ingrata.
Novo regime - Nosso presidente é um homem tão grandioso, tão isento de defeitos, tão perfeito e onipotente que talvez fosse melhor fundarmos, em seu segundo mandato, uma Teocracia Socialista Liberal, unindo todas as matizes da política nacional e todos os cultos numa única instituição.
Constrangimento – Senti-me envergonhado de pertencer a uma classe que, há meses, ilude a população com mentiras malévolas. Além de mudar de profissão, cancelei assinaturas de jornais e TV a cabo. Tudo, desde o caso Waldomiro Diniz, tudo não passou de mentira. Incluindo aí mensalão, caixa 2, corrupção sistêmica no Congresso Nacional e em estatais. Como diria o prefeito Odorico, tudo intriga da oposição fomentada pela imprensa. A partir de agora, só agência oficial.
Pecado - Fiquei envergonhado de, um dia, ter também eu me somado à sucia que teceu julgamentos sobre o custo-benefício das viagens presidenciais e sobre o preço do avião do presidente. Se Ele, o presidente, não se anima a julgamentos, quem sou eu...
Estadista – Soube que o Brasil é um país respeitado pelas nações mais ricas do mundo. Que o nosso presidente é tratado como um igual entre os chefes de Estado da Alemanha, EUA, Inglaterra, França, Japão, Canadá etc. Que maravilha os milhões de empregos gerados por minuto. Que fantástico nosso crescimento econômico, a elevação do PIB, a otimização da capacidade industrial. Aliás, não sei por que o povo, na sua ingratidão sem limites, queixa-se tanto. Possivelmente por conta da imprensa que, sem críticas reais a fazer, tem a cara de pau de dizer que o presidente não gosta de dar entrevista. Se na minha humildade posso fazer uma sugestão, acho que seria bom se Ele viesse com mais freqüência, através de cadeia de TV, contar-nos tantas coisas bacanas.
Glória - Vivemos nosso melhor momento, política e institucionalmente, dos últimos 500 anos. Senti-me envergonhado por desconhecer essa magnitude nacional, essa pujança econômica e social, esse país que é o sonho de consumo dos cidadãos dinamarqueses. Eu, esse ingrato, eu que há muito me sentia um cidadão de Sucupira. Estou redimido.
G.M.
6 comentários:
Excelente, Gus! Agora só falta publicar no Correio (risos)! Se bem que merece ir pra Folha. Em 2006, Lula presidente na cabeça.
Pois é, Juky. Pensei em publicar no site oficial do governo, mas eles me disseram que eu iria receber pelo BMG. Daí, levei medo. Bj.
Gus,
Concordo contigo em gênero, número e grau. E mais: fiquei decepcionada de fazer parte de uma classe que escreve somente ficção. Acho que vou seguir o exemplo da Isabel Allende, uma declarada jornalista-mentirosa, e seguir para a literatura de vez, já que estamos, ao meu ver, perdendo dinheiro com o jornalismo, né? Mas o motivo principal da minha indignação, de longe, é a capacidade que Ele tem de encantar. O que vi foi um grupo de jornalistas fardados e experientes rindo com o nosso querido presidente, no final das contas, como velhos companheiros!!! É foda, e por isso, me utilizo agora da quinta emenda.
Pois é, Oppitz. Se Lula não fosse persuasivo e carismático, não teria chegado nem à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos. Com toda a sua falta de estofo, é craque em desviar de bolas quadradas e falar só sobre o que deseja. Some a isso o fato de haver ali jornalistas que, apesar de experientes, estão desencantados com os descaminhos dos paradigmas em que acreditaram, cada um no seu tempo. Some ainda a intimidação de enfrentar o presidente em sua toca, o medo se ser deselegante e, ainda, fazer o programa numa TV pública. Não é mole. Bj.
Também acho que não seja, Gus. Mas o fato é que eles, nossos queridos colegas, estavam numa situação ímpar. Ou por acaso tu não queria participar do evento em questão, mesmo com todas as regras que devem ter sido pré-estabelecidas antes do "confronto"? Digo isso, principalmente, em função dos meses de longo silêncio do presidente, afora os monólogos e improvisos. Injustificável mas, paradoxalmente, compreensível. E só por um motivo: o carisma do Dito.
Pelo visto não perdi nada ao não assistir o Roda Viva ontem. Ando beeem relapsa com a política, o que acho uma belezura. Agora meu barato é TI.
PS: T = Tecnologia
I = Informação
bjos, saudade de ti Tali!
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