Sugestão & suicídio
Telefone. Um, três, oito toques. Atendi. Um velho amigo. Ouvir sua voz, no começo da madrugada, me pareceu um negócio meio sem sentido. Acordou-me com uma sugestão para meu próximo romance. Muito agradecido, expliquei que não era possível porque enquanto não publicar meu primeiro romance, não poderá haver um próximo. "Pena", ele disse, e foi contando a idéia assim mesmo. Ele descobriu que seu bisavô havia se suicidado. Pior. Suicidou-se no dia em que nasceu a primeira neta, que viria a ser tia desse meu amigo. “Imagina só: minha avó ainda se recuperava do parto quando alguém veio lhe dizer que encontrara seu pai pendurado pelo pescoço numa árvore, completamente morto e todo mijado!”, ele desabafou, superimpressionado. “Boa maneira de começar uma prole”, eu comentei, acendendo um cigarro. “É. Essa parte da minha árvore genealógica começou assim, um pescoço quebrado como brinde”, ele falou. Trocamos mais algumas amenidades antes que ele desligasse. Entre outras frugalidades ideais pra gente ouvir antes de dormir, explicou-me que é muito comum que pessoas enforcadas se mijem todas e outras coisas. "Sei, sei", eu disse, soltando uma lufada de fumaça que se tornou azul sob a lâmpada que me iluminava. Combinamos um almoço, tchau, é isso aí, tralalá. Apaguei meu cigarro e voltei pra cama levando a certeza de que não sou bom com histórias de família. E pensando em como tenho amigos que fazem coisas esquisitas, o quão esquisitas são essas coisas e no quão pouco ou nada me surpreendo quando eles as fazem. E tentando entender o porquê disso tudo.
G.M.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
quinta-feira, novembro 03, 2005
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3 comentários:
Valeu, Dani. E escreva mais por aqui. Abraço,
Ai, ai, Gus! Ainda bem, e tenho certeza disso, que consto da lista dos teus amigos que fazem coisas esquisitas e não previsíveis. A normalidade, na maioria das vezes, é tão chata!
De perto, de pertinho, ninguém é normal...
Bjos Dani! Bom te ver novamente!
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