Devaneios, alguma literatura e desabafos...

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Fragmentos (natalinos) III...

- Há vegetarianos em todas as religiões.
- Vegetariano por vegetariano, leia o Adriano.
- Isso aí.
- Mas esse judeu era vegetariano por causa da saúde. Não?
- É. Mas ele dizia que era pela saúde dos bois e das galinhas.
- Vai gostar de animais assim no inferno... Era vegetariano com inclinação à veterinária.

...

- Essas crianças só estudam! Tão branquinhas...
- É. Música, filologia, línguas. E ainda tem o colégio.
- Parece vida de adulto.
- Ou então elas foram convencidas de que estudar é divertido. É assim que se adestra um intelectual desde filhote. Depois, ficam uns chatos. Ou uns gênios. Ou se matam.
- Eu, hein...

...

- Isso aqui não é mais a minha casa.. É uma prisão.
- Ah, não exagera...
- É uma prisão que eu mesmo abasteço. Sou uma mistura de prisioneiro e provedor.
- Bom, eu só queria dar Feliz Natal.
Silêncio.
- Tá. Feliz Natal.
- A gente se fala.
- É, se fala.

...

- Olha aquela placa: “Vendemos galos e galinhas”.
- Será que vendem vivos?
- Claro.
- Por quê?
- Do contrário seria: “Vendemos frangos”. Se os bichos estão mortos, não importa o sexo.
- Pode ser...
- Essas questões de gênero só interessam em vida. Sem penas e funções vitais ativadas, não existem galo e galinha. Existem frangos. Sempre achei a morte um tanto feminista.
- É...

...

- Cabo Polônio?
- É uma praia esquisita no Uruguai. Um dedinho fino de terra avançando dentro do oceano.
- Sei. Tipo praia de artista?
- Tipo. Cheio de argentinos, chilenos, uruguaios. Não tem energia elétrica.
- Eu ia perguntar pelo asfalto e o ar condicionado. Acho que nem precisa...
- Tem que levar até cigarro, pra garantir.
- Deus me proteja...

...

- Falam que é literatura infanto-juvenil. Eu acho que é literatura. Ponto.
- Também não gosto desses rótulos. Dizem que quando Franz Kafka leu “A metamorfose” pros seus amigos eles se dobraram de rir. Classificaram a novelinha como comédia.
- Ele deve ter ficado puto.
- Não sei se ficou puto. Mas ficou triste porque teve certeza de não ter atingido seu objetivo.
- Por isso a gente não deve ter objetivos quando escreve. Entrou nessa de objetivo, se fodeu. Mesmo escrevendo um livro tão bom que a gente lê 80 anos depois.
- É isso aí. O negócio é escrever à toa. Ao caralho com os objetivos!
- Nada de literatura edificante.
- Perfeitamente.
- Acho que eu estou meio birinights. Tim-tim!
- Saúde!


G.M.

4 comentários:

Anônimo disse...

É bom pra chuchu, esse Auster, né, Belinha? Acho que é o caso clássico do autor que atingiu a maturidade, a excelência. Adorei que você está gostando. Tenho cagaço de indicar livros pra leitores exigentes. Bj.

Anônimo disse...

Hum....Parece que o menino se afeiçoou mesmo a série Fragmentos. Bom isso, principalmente quando se tem acesso aos bastidores...
Logo, logo, faço mais um capítulo também...

Anônimo disse...

Em Salvador existe uma bebida mui popular chamada "Birinight". Algo parecido com o Smirnoff Ice, mas nas versões groselha e anis. Uma verdadeira delícia... indispensável no carnaval. Saravá.

Anônimo disse...

Ai, ai, ai... (estas são as minhas três palavrinhas de hoje!)

Um beijo,

Pra vocês!

Arquivo do blog