Devaneios, alguma literatura e desabafos...

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Aos 65 anos, e eu afiando os dentes

Há dois dias completou 65 anos Fernando O'Donnell. Estufo o peito de parcos músculos e as minhas bochechas de trompetista pra dizer “Fernando O’Donnell, meu amigo”. É. Sim. Amigo que eu amo com cada um dos meus pedaços, os melhores e os piores. Cúmplice, leitor, tutor, pai, irmão mais velho, crítico. É a fórmula do meu estofo.

A natureza me brindou com o privilégio de fazer com que nossos caminhos se cruzassem, quando eu era menino (isso foi pouco depois da Idade Média) e ele já um homem de reconhecida cultura erudita e sólida sabedoria. Se no círculo dos intelectuais acadêmicos que justamente o procuram como ponto obrigatório em consultas histórias, jurídicas ou literárias é o saber que lhe faz imprescindível, a mim, noutro brinde da natureza, esse seu saber, crucial na minha formação, veio como bônus. A mim, mais que sábio, muito mais que culto, ele tem sido um oceano – às vezes pacífico, às vezes tempestuoso - de humildade, disciplina, generosidade e paciência.

Em duas décadas, houve uma comunhão de dois mundos privados. Sua casa, que desde nem lembro quando foi a extensão das casas que já tive nesse período, é hoje o lugar preferido do meu universo particular. As poltronas de couro de seu escritório acolhem-me como os joelhos que compõem o bom colo dos pais ou avós. Se ele fosse Gepeto e eu Pinóquio, esse escritório seria sua oficina e o lugar em que ganhei vida. Lá me inventaram, ali me reinventei.

Às vezes escrevo até que o cansaço me vença e levo para a cama as dúvidas comuns aos contadores de histórias rudimentares como eu. Então fecho os olhos e me vejo afundado numa das poltronas do escritório querido, uma aura sacra se insinua como os cânticos de uma oração de alvorada, a luz quentinha da luminária deixando que me maravilhem milhares de lombadas nas estantes infinitas, inspiro fundo e sinto o perfume do cachimbo e, mais, muito mais discretamente, da essência de eucalipto, as lavandas inglesas ou alemãs, ouço a voz da Silvinha – sua esposa, a mim igualmente cara e que merece capítulo à parte – pedindo pizza pelo telefone ou lendo em francês, o gelo tilintando no copo de uísque, a Rádio da Universidade tocando sinfonias russas, e então, na cama, a um só tempo longe e perto dali, acodem-me um a um esses ingredientes da massa que me recheia, sinto-me um Pinóquio que conseguiu virar gente, entendo que fui feito ali, naquela poltrona e a voz potente de Fernando O’Donnell se tornando minhas terceira e quarta mãos a construir a história que desejo contar.

Quando falamos sobre a morte, eu digo que a aguardo com os dentes afiados para mordê-la e ele me diz que a espera com uma única tristeza: perder tudo o que enfiou para dentro da cabeça. Há os livros que ele escreveu, os artigos, as conferências, os diálogos, as cartas, as colaborações em zilhões de trabalhos de gente graúda. Mas ele acha que não basta. Acha pouco. Inútil. Insuficiente. Que não há sentido. Eu não concordo, mas respeito. Nesse 65º verão, queria dizer, caso ele ainda não tenha percebido, que parte do que ele é está em mim, sua réplica animada e imperfeita. Pelo pouco que sou, e creiam não haver aqui uma gota de falsa modéstia, essa transferência não resulta grande coisa, mas se constata assim que nem tudo foi perdido. Nem tudo é papel e tinta. Enquanto isso, sigo afiando os dentes. Venha quando quiser. Não temos pressa nem medo porque somos dois e somos um.

5 comentários:

Anônimo disse...

Gus que coisa mais maravilhosa,manífica...esse texto é tudo,um dos belos e sinceros que li nos últimos tempos.Tudo de bom aos dois! Beijos

Anônimo disse...

ops....magnífica....

Anônimo disse...

Muito gentil, Bisinha (quase revelei o apelido completo!). Continue lendo, tá, querida? Bj pra ti.

Anônimo disse...

Lindo, Gus! E quem teve o privilégio de conhecer o Fernando e a Silvinha, mesmo que apenas por poucas horas, e conviver contigo diariamente, sabe que as tuas palavras são perfeitas....Saudades de ti!

Anônimo disse...

Também estou com saudades, Tali. Belinha, aquele negócio deu certo? Bj.

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