
Leio autores ingleses armado de alguma prevenção. Via de regra, acho-os chatos, fazem voltinhas desnecessárias e mesmo os mais mundanos e contemporâneos perdem grandes oportunidades de seduzir seus leitores por uma espécie de zelo excessivo pela forma, pela descrição de detalhes cuja necessidade é questionável. É questão de gosto, claro, já que prefiro os autores mais secos, o ritmo vertiginoso. Em todo caso resolvi aceitar o conselho da boa amiga Silvinha Dolzan e estou atacando Sábado, de Ian MacEwan, um londrino contemporâneo clássico, bem conhecido por lá e mais ou menos por aqui, com parte da obra adaptada para o cinema etc. Há uns anos, li uma antologia de narrativas curtas dele e achei meia-boca. Deste, estou gostando. MacEwan escreve de um jeito pesado, que custa a decolar, como seus conterrâneos. A diferença é que ele é modernoso: mistura tempos verbais, sobrepõe situações narradas, põe no liquidificador referências enciclopédicas com conhecimento específico, cultura erudita e música pop. Pode? Pode. E rende uma boa liga, faz a gente grudar depois de vencido o teste de paciência das primeiras linhas. Se você se senta para ler dez páginas, digamos que na lotação, lerá 30 se conseguir ultrapassar as duas primeiras. Deu pra entender? Recomendo. Na pior das hipóteses, é uma bela experiência.
G.M.
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