3 - A coragem dos domingos
Passava das três da tarde quando deixaram o restaurante do Hotel Sheraton. O frio azulado do domingo sem nuvens cortou seus rostos. "Caminha comigo?", ela perguntou, erguendo a gola do casaco de lã cor de cereja, uma réstia de sol de inverno lhe obrigando a cerrar o olho esquerdo e torcer o nariz numa careta infantil. Samir disse que sim, abotoando o sobretudo escuro, os olhos-miniatura sorrindo. Mal acreditava ter conseguido o telefone da moça. Acendeu um charuto enquanto ela torcia o quadril jogando o peso do corpo sobre uma das pernas, quase encostada na cortina de ferro da vitrine de uma loja fechada. Andaram em silêncio até que as vitrines minguaram às proximidades da Praça da Hidráulica, onde tudo se aquietava. Fizeram o caminho de volta. Uma tristeza dominical se insinuava, discreta mas crescente e implacável. Tinham a consciência tácita de que o mesmo acontecia com os dois. Sophia enfrentava os domingos bebendo a cair com as amigas ou fazendo ginástica até desmaiar na academia. Samir nunca soube reagir a esse mal que imaginava exclusividade brasileira. Quando menino, os domingos libaneses eram dias de pouca comida como os outros. Sentado ao chão de cimento bruto da cozinha, reunia seu rebanho de ovelhas dentro da cerca de carretéis de linha. Sentia-se o projeto inatacável de um homem rico ao confinar as numerosas ovelhinhas - na verdade, pedaços de caixas de maçã moldados a canivete - enquanto sua mãe cerzia meias e chorava o desaparecimento do pai levado de casa pela polícia política depois de chamar alguém de fanático na feira. Domingos no Líbano não eram especialmente tristes, ele pensava, já quase tele-transportado ao país natal, quando uma mão pequena e fria tomou a sua, interrompendo-lhe os passos de sonâmbulo. "Agora eu pago", Sophia falou, conduzindo-lhe ao interior de um café onde reinavam os excessos de gente, perfume, jóias e maus flertes. Sentaram-se. Samir pediu dois expressos. Sophia foi ao banheiro. Ele a observou esgueirando-se com desenvoltura de bailarina de caixinha de música entre as mesas e, depois, caminhando decidida no corredor livre. Mulher nenhuma andava assim, pisando como se o chão fosse de vidro. Mulher nenhuma fechava os olhos ao mastigar os jantares de Samir. Mulher nenhuma enfrentava a tristeza de domingo e a falta de nexo da vida com tamanha graça e coragem. Antes de sentar-se de volta, ela beijou-lhe a ponta do nariz enorme e era tarde, muito tarde. O coração simples de Samir ardia. Seu coração simples fora recheado de coragem, beleza e lava.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
quinta-feira, junho 16, 2005
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4 comentários:
Acho que eu quero esse Samir para mim! Perdi de acompanhar Lola, mass não perderei o Samir!
bjo K
Já o conhecia. Em outras tardes de inverno viajamos juntos por porto alegre. Na verdade ele parece um amigo meu, só que não tão solitário. Bom, muito bom .....
Olá Tali e cia..tá sempre mto bom isso daqui..ah,e Tali, quando vais postar um texto teu? Heim? Heim? Heim? bjins...
Vou postar sim, logo que terminar essa série do Gus. Tem um monte de gente cobrando, mas já aviso de antemão que não tenho o mesmo dom literário do menino...beijo pra ti guria
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