A sensação permanece praticamente a mesma, mas não incomoda mais. Estranho como a gente se acostuma. Queria ter certeza de algumas coisas. Não tenho. E assim vou levando e lidando com as situações de acordo como elas se apresentam. A noite foi linda, mais uma vez. O sono compartilhado também. A manhã foi, digamos, inusitada. Perdi o café por estar perdida em Porto Alegre. Acabei ganhando um almoço inesperado. Vamos ver o que a noite me reserva...
4 - A liberdade é uma picada letal
Dormiu a manhã inteira. Chegou à cozinha a tempo de assistir à explosão da cafeteira elétrica que estourou ao pico de energia provocado por raio. Detestava raios. Na rua, a chuva fina estragou seu penteado e encharcou as pontas dos sapatos vermelhos de couro escovado a aço. No táxi, orquestra pasteurizada da mesma FM da sala de espera do dentista e desodorante para automóveis. "Arg!", ela fez. Com o carro se arrastando como um animal ferido pelo trânsito congestionado da rua 24 de Outubro, manteve próximo ao nariz o punho perfumado da blusa de seda que saía da manga do longo casaco de couro. Os aromas do couro, do sache do armário, dos sais de banho, do creme hidratante e do seu perfume criavam uma barreira protetora ao cheiro do carro. Chegou. Bem próximo de onde estivera, na véspera, com Samir. Pagou. Desceu. A amiga Beth esperava no saguão do prédio. Beijaram-se as faces. Beth elogiou-lhe o casaco. Seria fácil e rápido, Beth garantia, no elevador. Um velho. "Nós duas e o velho?", Sophia quis saber. "Acho que é mais nós duas sem o velho", disse Beth, estourando uma bola verde de chiclete. O cheiro de hortelã artificial se espalhou e dissipou num passe de mágica. Aquela hortelã era uma afronta às folhas frescas do assado de Samir, no sábado. O elevador fez plim. Desceram. No fim do corredor, um homem magro abriu a porta. Entregaram-lhe casacos e bolsas. "Não capricha muito que eu gamo", Beth brincou ao pé do ouvido. Sophia riu. Mas não achou graça. Queria que fosse mais rápido que o possível. Queria que não fosse. Queria não estar ali. Queria sem táxi. Sem chiclete. Sem velho. Sem Beth. O velho estava na sala e nem era tão velho. Cumprimentou-as com um aceno. Tinha cara de estrangeiro e pele feia de varíola. Apoiava a mão direita numa bengala com castão prateado. Pele feia de varíola. Sophia saiu um pouco do ar enquanto coisas aconteciam à sua volta. Voltou. Qua ntos minutos depois? O velho continuava no mesmo lugar. Mas agora havia música e Beth com menos roupa tirando parte das suas. Esfregando. Beijando. Tentando. Viu a blusa de seda no chão. Viu os próprios seis nus. Sentiu-se tonta. Aproveitou que a amiga lhe beijava o pescoço e disse que precisava ir ao banheiro. Beth tirou o resto da roupa dançando diante do homem da bengala. Sophia fez o caminho de volta pelo apartamento gigantesco. Tomou do cabide suas coisas. A blusa ficara na sala. Azar. Vestiu o casaco sobre a pele, tomou a bolsa e saiu sentindo-se envenenada e livre.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
sexta-feira, junho 17, 2005
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7 comentários:
Sophia e Beth, muito interessante...
Taline, como sempre, mortal.
E havará mais, Anonymous. Continue acompanhando.
Boa, Gus. Manda mais aí. Bjo
Uepa... Perdi alguma coisa nessa ida a Santa Rosa.
Ah, pois é, Sissi. Em literatura e ficção, aconteceram coisas do arco.
me sou eu para que não restem dúvidas!
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