Tenho uma lista interminável de coisas pra fazer. Algumas delas, prorrogadas diariamente. Entre tantas, uma vai me dar muito prazer. Essa não passa de hoje, pra garantir. Por enquanto, continuem se encantando com a Sophia e o Samir. E aguardem que o Gus promete novidades...
5 - A proposta de Samir
"De todos estes edifícios, o nosso é o mais velho", Samir disse ao seu gato. Flertava com o dia cinzento enfiando o rosto através da basculante da cozinha enquanto o café marroquino era inundado por água quente. "Somados, temos séculos! Fantástico, não é?", repetiu ao bichano, que permaneceu impassível sobre uma das suas almofadas, ao lado do forno que aquecia os pães para o desjejum: é que não via sentido nessas observações temporais do seu dono, um bom homem com emoções desconexas. Era terça-feira de manhã e Samir não lembrava da última vez em que ficara em casa num dia assim. O café estava pronto. Samir preparou a bandeja. "Ela podia ficar aqui por uns tempos. O que acha?", perguntou ao gato, enquanto lhe servia um pires de leite morno desnatado. "Diga, gatinho, que tal?", insistiu. O gato bebeu sem muita vontade. "Ao contrário do que acontece conosco, os humanos machos se deixam subjugar totalmente por suas fêmeas. Deve ser muito difícil pra eles", o gato pensou, sem saber se deveria sentir pena ou orgulho pelo amigo, tão corajoso. Preferiu não responder. "O que teríamos a perder? Moral não nos importa. O dinheiro, temos tanto que não há quem nos tire tudo. Fora essas duas coisas, o que mais se pode levar de um homem?", inquiriu Samir, acariciando o dorso do gato. Por experiência, o animal sabia que quando os humanos regrediam o bastante para pedir conselhos a animais era porque já dispunham das respostas necessárias. Lambeu bigodes e patas e deixou Samir com suas reflexões. Foi escolher a saída da calefação mais adequada sob a qual se instalaria para o sono da manhã. No quarto. Sophia dormia naquela mesma cama desde a véspera, quando se ali se refugiara depois do programa fracassado com Beth e o velho. Estava acordada mas manteve os olhos semi-fechados na penumbra enquanto Samir pisava em um dos seus sapatos vermelhos de couro escovado a aço ao entrar com o desjejum. Só parou de fingir que dormia depois que ele lhe beijou as pálpebras. Sentiu o nariz gigante lhe espetando as maçãs do rosto. Aspirou-lhe o perfume amadeirado. Seus olhos vertiam lágrimas ardentes quando ela os abriu. Enrolou os braços em torno de seu pescoço e o abraçou com tanta força que o sufocaria à morte, não fosse um homem tão grande, gordo e escuro de quem não de pode tomar a vida. A respiração de Sophia em seu pescoço fez Samir sentir cócegas e rir e pedir socorro na língua dos libaneses. Quando ela finalmente começou a beber seu café e a morder o menor de todos os pedaços de queijo e mastigar aquilo por séculos, só então ele disse: "Sophia. Eu tenho uma proposta", o rosto tomado por medo e expectativa infantis. Ela pousou o indicador em riste sobre os lábios do homem. "Eu aceito", ela disse, muito, muito, muito baixinho. Tão baixo e sincero que somente o coração simples de Samir pôde ouvir.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
segunda-feira, junho 20, 2005
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8 comentários:
Postei abaixo do Joel um comentário sobre os comentários. E aqui, antes de falar em texto literário, gostaria de manifestar repúdio ao que ficou escrito sobre a Tali, ali no ABOUT ME: "lembrando uma elegante letra esse em caixa-alta e com cerifa". Putz! não mesmo. Essa descrição precisa mudar. Talvez ficasse mais condizente assim: A Tali é simplesmente um espetáculo, quase um escândalo.
Cara Márcia. Obrigado pela leitura e pelas considerações. Sim, concordo que há a escrita que consiste num ato de doação. Mas nem toda escrita é assim. E acho que não é mesmo o meu caso. Se eu chego a praticar algum humanismo, o que seria um outro loooooongo debate, não seria feito de forma tão explícita. É uma das minhas incontáveis falhas: sou pouco objetivo. De onde vêm as palavras digitadas? Sim, vêm de uma longa coleção de livros, como acontece com todo mundo que escreve. E vêm também do que tenho visto, ouvido, e sentido há 34 anos; também como ocorre com todo mundo que escreve. E perdão se eu decepciono, mas de fato não uso a literatura para me esconder ou mostrar. Sou um homem simples e uso as palavras com o modesto porém sincero objetivo de contar histórias. Só. Volte sempre.
Honrada Caco, apesar de amar a visão do Gus...
Os comentários estão pegando fogo, hein? Rolou até veto! o fato é que eu terminei de ler este capítulo com o coração na boca. Contando as horas para o próximo post, ó céus!!!
Caro Gustavo,
Simplesmente encantador, seus textos são impecáveis...
Fã desde as primeiras leituras... garanto meu acesso neste site a partir de agora.
"O talento não se compra... se vive"
Parabéns!
Wayne
Grande Mr. Wayne. Grato pela gentileza. Vá comentando que, como dizia o reclame, a sua opinião é muito importante pra nós. Abraço;
Me lembro bem desse Wayne, mas faz tempo...
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