Devaneios, alguma literatura e desabafos...

segunda-feira, junho 27, 2005

9 - Três ou quatro gramas de beleza

Antes de abrir os olhos, torceu para que sua primeira visão fosse Samir. Mas não. Mesmo escondia atrás das pálpebras, sentia o peso de um braço sobre sua barriga. Um braço leve. Pele macia. Além desse braço havia outro peso. Um rosto imberbe usava seus seios como travesseiro. Ah, quanta permissividade. Ficou furiosa. Sempre que deixava a colega dormir lá era assim: excesso de intimidade. Impressionante como as pessoas jamais se contentam com pouco mais que o mínimo, ela refletiu. Tentou lembrar da noite anterior. Não pôde. Só fragmentos e o gosto da tequila descendo rascante. E gargalhadas. Agora era um domingo de manhã e Samir estaria preparando o desjejum a alguma puta. Que bela troca de vida, ela pensou, afastando o quase-cadáver de Beth que, tentava, mesmo em sono profundíssimo, beijar-lhe o lóbulo da orelha direita. Havia roupas por todos os cantos e reinava no ar uma pesada mistura de odores: dois perfumes misturados, tabaco, suor, incenso, álcool. Sentiu náuseas. Tentou erguer-se com jeitinho mas acabou tendo que empurrar a amiga que quase caiu da cama e, depois de três ou quatro palavrões, voltou a dormir. Sophia pisou com os pés descalços no parquê do pequeno apartamento a que tinha voltado. No segundo passo em direção à janela, chutou um cinzeiro lotado. No terceiro, amassou um brinco. Praguejou e sentiu vontade de chorar. A vontade aumentou quando viu no espelho os olhos borrados, tão bem delineados na véspera. E o rosto inchado. E o pescoço marcado a dentes. Teve a impressão de que a cada dia perdia três ou quatro gramas de beleza. A vida era assim, pensou, uma permanente transformação. E sempre para prior. Abriu as cortinas. Na rua, um dia azul, seco e gelado. Pensou na proposta do velho da bengala. Uma proposta parecida com a de Samir. A única diferença era o velho. Beth dizia que ela não devia aceitar. Mas o que Beth entendia sobre qualquer coisa, com 20 anos? Enfiou Norah Jones no CD player e encheu a banheira. Beth acordou com a música. Submergiu por segundos-anos. Na volta, a amiga estava sentada na borda da banheira e massageava sua cabeça. "Vou lavar pra ti. Como no salão. Fecha os olhinhos", disse Beth, e em seguida começou a falar de uma liquidação de sapatos em uma loja nova do Iguatemi. Com os olhos fechados, como devia ter continuado, sentiu o corpo amolecer como se cozinhasse em sais minerais e água quente. Claro que ela preferia que Beth não fosse Beth. E que Beth se contentasse em ser sua irmã mais nova emprestada. Mas era bom que ela estivesse ali. Se o velho quisesse, teria que ficar com as duas. Ia propor isso, sim. Ou não proporia nada. Algo tinha que ser feito. Mas primeiro ia lavar os cabelos.

6 comentários:

Anônimo disse...

O que será que o destino reserva para Sophia? Hein Sr. Destino G.M???

Anônimo disse...

O que será que o destino reserva para Sophia? Hein Sr. Destino G.M???

Anônimo disse...

A estória da Sophia é muito mais longa do que tu imagina Juki...E tu sempre esquecendo de te identificar né?

Anônimo disse...

Não guria... esse blogspot que é louco! hehehe

Anônimo disse...

TRÊS OU QUATRO GRAMAS DE BELEZA? A TALI TÁ ESTOURANDO A TANGA!!!!! Fala aê, linda. Agora tá que tá com truques de escova, chapinha e produtinhos do gênero. Assim que gosto de te ver, amiga, linda, linda, linda e feliz.

Anônimo disse...

ôpa, tá rolando alguma novidade ae??? Bjos

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