Devaneios, alguma literatura e desabafos...

terça-feira, junho 28, 2005

Sempre fiquei confusa e indecisa quando muitas possibilidades se apresentavam. Pensei que agora seria diferente. Me enganei.
A última parte, pelo menos por enquanto...


10 - Lado oculto da pele (epílogo)

Lola arregalava os olhos e mordia as costas da mão esquerda a cada nova fisgada. Arrancavam-lhe a pele do ventre pelo lado de dentro do corpo. Todo mês a mesma coisa, ela pensava, tonta pelo excesso de analgésicos criados com boa intenção científica e eficiência relativa para aquele calvário feminino. Um sofrimento universal e democrático que irmanava ciclicamente mulheres de todos os continentes. Na dor, somos iguais, ela ruminava, enquanto na TV pessoas morriam queimadas num incêndio. Filme estranho. Não gostava do canal 43. Sentia vontade de estourar pipocas no microondas mas não havia disposição suficiente no resto de sangue que lhe pulsava no corpo. Como no dia em que descobrira o fim do fermento com o forno já quente, o dia em que o bolo falhara por falta de fermento e namorado, lamentou novamente a solidão. Não, não era solidão. Era falta de sorte. Sorte de encontrar um namorado à altura de comprar fermento e estourar pipocas. Namorado de mãos quentes que domassem os dragões que lhe comiam os interiores, intimidando a profilaxia dos comprimidos desenvolvidos por homens que jamais haviam sonhado com dores lancinantes assim. De qual dor sofrem os homens? Dói quando apertam o dedo na janela, beliscam pele do pênis no zíper, quando se machucam no futebol, batem a cabeça numa porta de armário aéreo. Sofrem por acidentes domésticos ou desportivos. Só. Não, não era só, não. Os pobres também sofriam dores espirituais como a negativa de namoradas. Sofriam mesmo quando rechaçados por mulheres a quem faziam a corte. Mas isso era pouco. Era ínfimo. Não houve na história da humanidade um único homem que tivesse sido veículo de dor semelhante àquele martírio mensal, Lola tinha certeza. Quando Giordano Bruno foi queimado, não sofreu tanto. Imaginou outros mártires esquartejados e chamuscados e mutilados e esticados. Lembrou sobretudo dos santos: as hagiografias haviam marcado sua infância de colégio católico. Nesse gênero literário, quem mais sofria eram os santos-homens. Talvez o padecimento masculino viesse findando em ritmo proporcional ao do desleixo dos processos do Vaticano em prover o mundo de novos santos, ela pensou, não exatamente nesses termos. E foi quando mergulhava em sofrimentos os mais profundos e pensamentos os mais longínquos que a campainha do porteiro eletrônico apitou.

6 comentários:

Anônimo disse...

Lola, Lola novamente! Compartilho com ela das mesmas dores mensais... quilos de pele arrancadas por dentro! Bjos, amados!

Anônimo disse...

opa... arrancadOs. :P

Anônimo disse...

engano seu taline.... a rua 'e escura, mas termina.

Anônimo disse...

Coment um tanto cifrado. Pena que não tenho tempo pra pensar nele agora...

Anônimo disse...

Não deixa de atualizar o blog antes de viajar, né guriazinha?

Anônimo disse...

Não te preocupa Juki. Tudo combinado...

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