Devaneios, alguma literatura e desabafos...

sexta-feira, junho 03, 2005

Ao que tudo indica hoje realizo um sonho antigo. Tô feliz! E pra comemorar, pelo menos até o cair da noite, o segundo capítulo. É contigo Gus...

2 - Se os anjos fossem mudos

Bartolomeu acordou naquele sábado sem sabê-lo especial. Mal se instalou no balcão e ouviu Sr. Moskat se despedindo. Escutou os guizos metálicos da porta da loja de secos e molhados. Uma lufada de ar matinal lambeu o estabelecimento enquanto o patrão passava pela porta. Depois da lufada fugaz de ar fresco, voltaram os mesmos cheiros rançosos de sempre e o mesmo pó sobre os mesmos móveis e prateleiras de sempre e o mesmo ar viciado de sempre. Bartolomeu acompanhou os passos curtos do curvado Sr. Moskat lá do lado de fora da vitrine como se assistisse aos movimentos do velho através de uma câmera de cinema. Saiu do enquadramento. Corta. Não havia motivo para que Bartolomeu se descobrisse ainda mais solitário do que se sentia nas manhãs de sábado, os únicos momentos em que o Sr. Moskat deixava o estabelecimento para cumprir suas obrigações religiosas. O que haveria de negativamente especial? Tinha uma vaga idéia. Passava-lhe pela cabeça que a cada sábado dos últimos 20 anos o Sr. Moskat estava mais velho e que, muito em breve, não haveria mais sábados de solidão porque também não existiriam mais segundas nem terças nem quartas nem quintas nem sextas-feiras gostosas para ouvir ao lado do aquecedor a óleo aquelas histórias todas da fuga dos Moskat do Leste Europeu para Nova York e de lá para a Argentina e de lá para o Bom Fim, onde o avô do Sr. Moskat, já muito, muitíssimo velho, instalara aquela mesma lojinha em que ele, Bartolomeu, mesmo sem ser europeu nem Moskat nem judeu e apesar do nome de santo católico, trabalhava havia duas décadas, depois que sua família empobrecera e ele passara a varrer o pátio da sinagoga por algumas moedas que lhe dava o rabino Mendell até conhecer o bom Sr. Moskat, até aquele sábado seu único amigo, que o acolhera na lojinha. Ele pensava nesse amigo que envelhecia com voracidade e o que seria de seus dias depois da morte do bondoso Moskat quando os guizos da porta soaram e uma moça passou pela porta e avançou na sua direção. Pediu três vezes um produto qualquer. Mas ela era tão linda que Bartolomeu não lhe ouvia a voz. Tão linda que parecia um anjo a mexer a boca sem que dela saísse qualquer som. Maravilhado, iluminado, beatificado, Bartolomeu sorriu sem economia e esqueceu a morte do bom Moskat e ficou pensando se os anjos seriam mudos.

12 comentários:

Anônimo disse...

Os anjos não são mudos, muitos de nós é que somos surdos...

Anônimo disse...

fermento no lojinha...
Atenção sr.Gm favor enviar mais textos, o público ansioso espera... dé

Anônimo disse...

bom poder te ajudar tali....

Anônimo disse...

Oi, Dé. O mesmo leitor atento e generoso de sempre. Virão todos os capítulos. São cinco. Depois, a segunda parte da história, aquela do Samir, lembra? Fique de olho. Abraço.

Anônimo disse...

Sei disso...te devo um vinho incrível. Pode ser?

Anônimo disse...

Tali, gostei da descrição .. . letra S em caixa alta é bem coisa de jornalista mesmo. O Blog ta bem bonito! Espero pelo teu texto. O Gustavo escreve bem e ele que me desculpe de estar deixando um recado pra ti nos coments do texto dele ! Beijos !

Anônimo disse...

Âhanhn.....
olha que vinhos incríveis são caros e cobro promessas, sabes né?!.......papagaio

Anônimo disse...

Sim Bela. Acho que tu sabe mesmo. Quanto ao papagaio sem bem os preços dos vinhos bons, viu?. Escolhe, mas não exagera! E me avisa. Toni, não tem problema deixar coments pra mim no texto do Gus...Aguarda que o meu vem...

Anônimo disse...

Marquez de Arienzo.
papagaiodeolhoverdeebomgosto

Anônimo disse...

Assim que é bom, né? Porém, aos leitores que se encontram mais desorientados que anão em passeata, informamos que logo estará à disposição um supermanual para conversas cifradas e piadas internas.

Anônimo disse...

bom começo né gús.
quem sabe publicar comicas de gustavo machado...
piada de......

Anônimo disse...

Marquez de Arienzo. OK. O Gus, como não poderia deixar de ser, vai me ajudar nessa...

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