Devaneios, alguma literatura e desabafos...

segunda-feira, junho 06, 2005

Pra começar bem a segunda, o terceiro capítulo da estória do Gus. Deliciem-se! Em tempo: Hoje o céu tá mais azul. Ou eu tô vendo ele assim, pelo menos.

3 - Pelo avesso da receita

Lola guardava as compras pensando no homem estranho da lojinha. Incomodada com o sujeito branco com esgares de retardado ou deficiente auditivo. Mas só no início. Só até mostrar as mãos quentes e o sorriso perolado. E o que mais? Mais nada. Mesmo? Lola foi acomodando cada coisa no seu devido lugar. Guardanapos, castanhas, fósforos, chocolate em pó, alfinetes e linha. Ao depositar os envelopes de fermento no interior da segunda porta do armário aéreo, lembrou com mais intensidade do rosto do homem. O que havia naquele semblante mudo e inodoro e insipiente e mesmo assim cheio de promessas de sons e aromas e sabores? Era como cozinhar ao contrário: ver o prato pronto para só depois escrever-lhe a receita. Receita ao avesso. Não estava acostumada. Um fio de desamparo, três notas de ardor, quatro medidas de tristeza antiga, duas xícaras de dignidade, dois dedos de desespero e um galão inteiro de humanidade. Lola correu até sua janela predileta e acariciou o gato que dormitava apanhando o último sol da manhã de sábado acomodado temerariamente ao parapeito. Às pontas dos dedos de cristal, Lola sentia o ronronar do gato lembrando das mãos tenras e ternas e tensas do homem de pouco tempo atrás. Ah, e que mãos deliciosas! Tivera a impressão de que ele tentara tocar-lhe os dedinhos de propósito. Ou ela mesma teria conduzido o contato discreto na hora de apanhar troco? O fato é que se tocaram e aquele roçar fugaz foi suficiente para que Lola imaginasse essas mãos quentinhas lhe consolando as cólicas ou acariciando os pés maculados por horas calçando salto-alto. Era um bom toque. Tinha espécie de sabor-tátil, se é que isso existia, extremamente familiar. Quantos defeitos haveria por trás daquele conjunto infantil desprovido de qualquer beleza instantânea? E mais o quê? Casado? Idade? Nome? Crimes? Vícios? Debilidades? Ela já o encontrara diversas vezes, nas compras. Mas só nessa última percebera-o. Tomando o gato nos braços, deixou-se cair na poltrona vermelha que também acomodava o sol. Tirou os sapatos e deixou as solas dos pés plantadas sobre chão de madeira delicadamente aquecida. Ficou pensando na tranqüilidade de ser um gato. Concentrou-se nessa idéia. Se pudesse, seria um gato e tomaria sol aos sábados e não pensaria nunca mais no homem da lojinha. Era assim?

20 comentários:

Anônimo disse...

Nada melhor que um bom dia de céu azul com leitura que prende e faz pensar como alguém consegue encaixar tão bem as palavras. Além é claro de pirar com as particularidades de Lola . dé

Anônimo disse...

Realmente o Gus tem esse dom Dé. Sorte a nossa que temos o privilégio de poder ler ele...Sobre as particularidades da Lola vou me abster pq isso já criou muita polêmica há algum tempo...

Anônimo disse...

Estou devorando a estória do Gus. Para mim, tudo novidade. A Lola é intensa em seus pensamentos e impressões, pelo menos é o que percebo até aqui. E hoje o céu está muito azul, como tem sido pra mim há alguns dias. Vontade de ficar na janela lagarteando feito o gato. Mas não tenho vontade de ser como o gato... odeio gatos! Hehehe, beijocas pra vcs.

Anônimo disse...

Ótimo vocês estarem gostando de reler, como o Dé, ou conhecer Lola, como a Juky. Tenho um colega que caiu perdidamente apaixonado por ela. No sábado, Karina Chaves, dona deste incrível corpinho aqui, perguntou se ela existe. Pergunta ótima.

Anônimo disse...

Gostei do "dona deste incrível corpinho aqui"...

Anônimo disse...

E ela existe? ;-)

Anônimo disse...

Conheço alguém que gostaria de ter sido a inspiração pra Lola...

Anônimo disse...

Bom, tentei fugir da polêmica, mas não deu. Juki, é claro que a Lola existe. Quer dizer, não assim, exatamente como o Gus descreve (talvez sim, quem sabe...), mas na percepção do nosso amigo escritor. Ele pode ter sido amante dela, um bom amigo, ou visto na rua apenas uma vez e por um segundo...Não existe ficção totalmente desconexa da realidade...

Anônimo disse...

Ninguém quer saber se o bom e esquisito funcionário da loja existe?

Anônimo disse...

Ai Gus...o bom e esquisito funcionário também deve existir. Já sei. Mas ele não tem o privilégio de invadir a minha imaginação...

Anônimo disse...

Já saquei. E é bom que seja assim... uma mulher real/virtual (ou virtual/real?) que inspira os nossos mais belos e secretos desejos. E que podem ser compartilhados conosco nesta estória incrível. Bjos

Anônimo disse...

Quisera eu invadir a tua imaginação Taline, assim como a Lola...

Anônimo disse...

Esse H. Sempre escrevendo bem pra caralh...! Adorei a visita e o blog está lindooo! Parabéns aos dois! Bjinhu, S.

Anônimo disse...

Ufa, fiquei meio distante ontem e tava bom isso né.........
Essa coisa de real e imaginário é o melhor, na verdade pouco importa se Lola realmente existe pois pra mim sim. Aí Tali heinh.......tão querendo invadir tua imaginação...

Anônimo disse...

(ou será que foi o gús que postou aquilo)...... tô loco.....

Anônimo disse...

Não foi o Gus não Dé. Pena que ele preferiu ficar no anônimo...fazer o quê?

Anônimo disse...

Não fui! Não fui eu!

Anônimo disse...

Ariela Boaventura. Gosto de te ler guria!

Anônimo disse...

Quem quer invadir a imaginação da Tali, afinal???
- Espero que novos e bons ares (Dé amado, nada a ver contigo esse comment, okey...?)

Anônimo disse...

Me enganei! O coment não foi da Ariela não...

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