Devaneios, alguma literatura e desabafos...

terça-feira, junho 07, 2005

Lola me ligou hoje, bem no início da manhã. Logo reconheci a voz levemente adocicada. Está muito feliz, contou-me, porque jamais sonhou que, um dia, pudesse se tornar motivo de debates. "Imagina discutirem se eu existo ou não", ela me disse, achando tudo muito divertidíssimo. Eu desde já agradeço as atenções, pois, no fundo, Lola é uma moça... Não, ela não é triste. Mas insiste em sobreviver nela um quê de tristeza, mesmo nos seus momentos de felicidade plena. Acompanhem, a seguir, o quarto capítulo da estória. Depois deste, virá o último.

4 - Primeiro chá de Domingo

O relógio da sala anunciou a madrugada de domingo. Moskat arregalou os olhos na semi-escuridão do quarto de móveis pesados que haviam sido dos seus avós. No cabide, próximo à janela com as venezianas entreabertas, o terno negro que usara na sinagoga parecia agora um enforcado. Um presságio venenoso como o negror dos móveis e do terno e da noite que se despedia abraçou seu corpo magro. Se a Srª. Moskat ainda dividisse a cama com ele, não teria medo. Mas o barqueiro já a buscara e ela há anos esperava pelo marido do outro lado do rio, tricotando mantas e ouvindo valsas pelo rádio. Do escuro surgiam rostos medonhos no teto, entre o guarda-roupa e a cômoda, na entrada. Caretas com dentes arreganhados. "Estou morrendo", ele pensou. "Morrer é assim?". Acendeu a o abajur e se sentou na cama. Esfregou os olhos, enrolou-se com o roupão atoalhado, calçou as pantufas e foi até a cozinha. Precisava de um chá. Acomodou-se à mesa em meia-lua e ficou observando a chama que aquecia a água. Se morrer fosse só isso, estava pronto. O vapor da água quente começou a sair pelo bico da chaleira. Cerrou os olhos e enxergou, como se ele mesmo tivesse visto, a chaminé do navio que trouxera seus avós da antiga Polônia. A chaminé fumava, a embarcação cruzava o oceano e ele, Moskat, não era sequer uma centelha de vida. Era no máximo uma improvável lembrança invertida, uma recordação do futuro. Logo vieram também os cheiros e as vozes da sua infância e o pai lhe contando que havia um bom romance que falava de uma família Moskat. Depois sentiu os lábios tocados pelo primeiro beijo da deslumbrante Larissa, sua Larissa Moskat, em baile da Sociedade Israelita. Essas recordações foram estufando de vitalidade o menino-velho Moskat. O ar que respirava se transformou em uma deliciosa iguaria. Sorvia com voracidade de recém-nascido o oxigênio disponível em sua cozinha. Logo não havia em seu peito mais espaço para dor e nem caretas e enforcados que o fizessem sofrer. Preparou seu chá e foi até a sala. Espiou a calçada lá embaixo. Escreveu o próprio nome na janela embaçada pela respiração. "O senhor que espere mais um pouco", ele disse em voz alta, não sabia direito a quem. Talvez ao barqueiro. Se quisesse buscá-lo, que viesse mais adiante pois ele ainda tinha muito a fazer. Precisava reeleger o vereador da comunidade, visitar a Polônia, maravilhar-se com as trocas de estações, ler os jornais, comer empadas, suar no verão e tiritar no inverno e sentir nas retinas o vermelho-ardente do pôr-do-sol e dar pipocas às carpas do parque e contar histórias do Leste Europeu para o sempre menino Bartolomeu, o bom filho que a Natureza o deixara escolher. "Não. Hoje eu não vou", decidiu, movimentando o saquinho de chá como se badalasse um sino de cabeça para baixo.

12 comentários:

Anônimo disse...

"Uma recordação do futuro"... adorável.

Anônimo disse...

Pelo baixo volume nos comentários, constatamos que o povo gosta mesmo é da Lola. E do velho Moskat? Esta sim é personagem popular. Em tempo, grato pelo comentário do amigo anônimo aí acima.

Anônimo disse...

Logo saio do anonimato Taline. Topa uma conversa no fim de semana?

Anônimo disse...

Só para constar, o 1º anônimo era eu, mas o blogspot de tilt e não publicou meu nome! Bjs

Anônimo disse...

Então, muito grato, Juky.

Anônimo disse...

Quem sabe...apresente-se!

Anônimo disse...

Quem é o anônimo que tá convidando a Tali para sair?! A gente conhece? Se manifesta! Quero saber!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Ah, pois é. Quem será o admirador secreto da Tali? É a pergunta que não quer calar.

Anônimo disse...

Sou secreto, mas não desconhecido. Logo ela vai saber.

Anônimo disse...

Tali arrasando corações...

Anônimo disse...

Esse jeito anônimo de ser acho que conheço, não???? e sobre a Lola Gus querido ela sem a menor dúvida, despara à frente do Sr. Moskat. Beijos aos amados!!!!

Anônimo disse...

Espero que logo mesmo.

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