Devaneios, alguma literatura e desabafos...

quarta-feira, junho 22, 2005

Atendendo a pedidos...


6 - Reinado e exílio de Sophia

Não gostava do apartamento nem do bairro: mudaram-se. Não gostava do carro de fim de semana, trocaram. Na dúvida entre 36 e 37, encomendava calçados estrangeiros com número quebrado. Trocou as obturações convencionais pelas de porcelana. Retocou a tatuagem. Tratou a celulite imaginária. Quis conhecer a Tailândia, ele a levou. Natal em Nova York, foram juntos. Queria ser pintora e Samir transformara uma peça do apartamento em atelier. Pincéis de marta, tintas, solventes, cavaletes, blocos para desenho, bastões de carvão, pastéis. Mas jamais sujara um pincel. Nunca um esboço. Sentava-se sobre a almofada persa, entre telas e tintas. Ali, olhos cerrados, o rosto recebendo a última nesga de sol da tarde através da janela de vidros duplos, era ali que Sophia sentia crescer a culpa hedionda pela própria indiferença ante a vida de rainha que levava nos últimos dois anos. Cartões de crédito, clube para freqüentar academia de ginástica e sauna e massagem. Salão de beleza quatro vezes por semana. Quem não rezaria três vezes ao dia agradecendo a sorte? Sophia não rezaria. Por quê? Por que não explodia de felicidade? Não sabia. Sentia o peito apertar sempre que o telefone tocava e a fotinho de Samir surgia no visor. E ele era o mesmo Samir de assado com hortelã, perfume amadeirado, beijos nas pálpebras. Gordo. Grande. Escuro. Charmoso. Encoberto por névoa azulada de bons charutos. Onde estava Samir? Era por esse Samir que nela não havia mais, que ardia seu pesar e gritava a saudade pungente do que desconhecia. E era o estranhamento ante esse homem que, ela sabia, não mudara um grama, er a essa estupefação por sua irreversível incapacidade em amá-lo e por ele ser amada que Sophia urrava muda enquanto o sol se despedia da tarde, mergulhando silencioso e lento no Guaíba que ela via de longe, quando se erguia da almofada persa encostava a testa à janela dupla. Pensou que ele poderia ser o eleito e despertar seu amor. Mas, agora estava certa, não fora provida dessa faculdade. Era assim sua natureza. Era este seu reinado. Reinado e exílio. Exílio de quê? Vislumbrou-se esposa adúltera de senador romano caminhando ao suicídio. Mordeu os lábios até sentir gosto de sangue. Sufocou o choro. "Algo tem que ser feito. Logo. Algo tem que ser feito porque já é tarde", ela pensou, olhando fixo nos olhos amarelos do gato que a vigiava. Teve a impressão de que o felino concordou, do modo como os felinos avalizam as decisões de humanos, muito eventualmente, prestando-lhes grande distinção. Concordou e deu-lhe as costas, elegante, em busca vã das saídas da calefação que não existiam no apartamento novo. Ele sabia que nada encontraria. E sabia que mesmo os seres mais sofisticados são passíveis de condicionamento e neurose.

5 comentários:

Anônimo disse...

Tali, prazer em conhecê-la! Um beijo pra vcs dois, e ah menina tá na hora de postar os teus devaneios literários e Gus...essa Sophia é tudo! Bjus aos dois!

Anônimo disse...

Ops. Mandei beijos várias vezes, tsc, tsc, tcs.Deve ser a falta de coca-cola no sangue!

Anônimo disse...

O prazer foi meu Pree. Bom conhecer as pessoas que temos contato somente pela tela e teclado. Os meus devaneios serão publicados sim, pode esperar. Bju pra ti.

Anônimo disse...

Não me resta dúvidas de que a tendência do "3 palavrinhas" é melhorar a cada dia que passa! Estou apaixonada com a estória da Sophia e louca pra ver a hora em que a Tali vai colocar no ar seus "manuscritos"... ou seriam "digiscritos"? Hehehehe, bjos pra vocês queridos!

Anônimo disse...

Dani,
O pior é que não. Fico feliz por parecer familiar porque porque o objetivo, mesmo que não diretamente, é este mesemo: que as pessoas leiam coisas familiares nas histórias, fatos que aconteceriam ou poderiam ter acontecido com elas ou com gente que elas conhecem. But, como diz aquela velha máxima: esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é...
Muito obrigado pela sua leitura. Abraço,

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