Impossível evitar a impermanência e a busca incessante da felicidade e plenitude diárias. Queremos mais, sempre mais. É isso.
7 - Por trás do ímã
Quando Samir despertou, a manhã de sábado já tinha chegado. Sentado sobre a base formada entre sua barriga e peito, o gato aguardava que ele retornasse ao mundo dos vivos e lhe desse de comer - começou a ronronar ao perceber que o dono abria os olhos. Bocejaram juntos, um contagiando o outro para novo bocejo. O sol cegou os olhos miúdos de Samir. Afagou o pescoço do gatinho e gritou por Sophia. Gritou mais alto. Gritou de novo e mais alto até que o gato se assustou e partiu do leito numa descarga elétrica, fincando as unhas das patas traseiras na barriga de Samir. Era comum que ela fizesse isso nos fins de semana: levantava-se mais cedo, comprava pães frescos e preparava um café horroroso numa grande demonstração de carinho ao libanês que a acolhera com amor incondicional. "Engraçado", pensou Samir, observando através da grande janela da sacada do quarto. "Engraçado Sophia ter feito eu me mudar de um prédio antigo para outro mais velho. Acho mesmo que este edifício é o mais velho do quarteirão. E olha que os prédios vizinhos são antiqüíssimos. Somados, chegam a meio milênio, talvez", ele refletiu, sentindo crescer lentamente, entre o céu da boca e a e língua, aquele inconfundível gosto de tragédia que antecedeu todos os seus piores momentos da vida. Como aquelas pessoas que estão morrendo afogadas, um filminho foi rebobinado na tela mental de Samir. Nos últimos meses, era como se ele e Sophia fossem seres absolutamente desprovidos de passado e futuro. Desprovidos e libertos. Livres de tudo que não dissesse respeito ao presente. Isso era amor, Samir, imaginava. Um caso clássico de amor. Amor em cargas industriais. Pensou em chamar por Sophia mais uma vez mas temeu que, na improvável possibilidade de ela o ouvir e a ele vir, flagrasse aquelas lágrimas que, insubordinadas, teimavam em pressionar-lhe os cantos dos olhinhos e verter em quantidade de calamidade pública. Rosto lavado, nariz entupido, Samir andou pelo apartamento sabendo que nada encontraria. "Você sabia que essa hora chegaria, velho Samir, seu estrangeiro burro", ele disse ao próprio rosto quando passou pelo grande espelho belga elíptico da sala. Sentiu vergonha do rosto inchado, da expressão infantil, do coração perdido, daquele presente negro que agora, pela primeira vez em meses, carecia de pretérito e futuro. Cozinha. Na porta da geladeira, fixada com ímã promocional da companhia de gás, uma folha branca dobrada. Samir suspirou sonoramente. Uma lança medieval traspassou-lhe costelas e órgãos vitais. Apanhou a folha. Sentou-se. Desdobrou-a. Abriu-a bem sobre a mesa, esmagou as dobras com as mãos grandes espalmadas até que o papel envergasse de tão liso. Então ele apoiou os dois cotovelos sobre o jogo americano da mesa semi-posta para o café que não haveria, segurou a cabeça na altura das orelhas, fungou duas vezes e leu a carta que começava assim: "Samir, meu amorzinho. Não me perdoe porque eu não mereço. Nunca".
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
quinta-feira, junho 23, 2005
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4 comentários:
Ai essa carta..suspense!!!
Tadinho do Samir...
Sem drama meninas! Como eu postei lá em cima, é a maldita impermanência...
Tá funcionando sim Dani...
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