Devaneios, alguma literatura e desabafos...

segunda-feira, junho 13, 2005

Começa hoje uma nova estória do Gustavo Machado, não menos apaixonante que a de Lola (que vai voltar, não se preocupem). Conheçam o Samir e o amor e a paixão e a impermanência e no que vai dar isso tudo...

1 - O coração simples de Samir


"Somados, estes prédios que nos cercam têm uns 300 anos de idade, incluindo o nosso", disse Samir a seu gato persa obeso que abriu um olho em consideração ao amigo e logo voltou a sonhar com alvos filés de linguado e suculentas postas de anchova. Samir escancarou a janela da sala. O vento noturno, limpo e gelado de julho fez dançarem as cortinas pesadas enquanto ele cravava os dedos dos pés descalços nos tapetes orientais e mantinha cerrados os olhos libaneses miúdos para que o nariz gigante melhor consumisse o ar noturno levemente amadeirado pela fumaça discreta da lenha jovem ardendo nos antigos sistemas de caldeiras que proviam de conforto escaldante os banhos de Samir e seus vizinhos de porta e vizinhos de outros andares e vizinhos dos edifícios vizinhos que o cercavam, prédios tão velhos que, juntos, somavam uns 300 anos. Samir reincidia nesse raciocínio secular quando o interfone tocou. "Deve ser nossa convidada", disse ao gato, que não gostava de visitas e, mal-humorado, desceu da poltrona alaranjada em busca de sossego nas peças íntimas do grande apartamento. Samir autorizou ao porteiro de voz rouca e grave pelo excesso de fumo que a moça subisse os 16 andares. Correu à cozinha. Abriu o forno e cobriu de ervas frescas, amêndoas salgadas picadas e azeite de oliva as costeletas de carneiro quase prontas. Aplicou os últimos retoques à mesa posta para dois (refletiu um pouco e achou melhor trocar o arranjo de flores do campo desidratadas pelas orquídeas que estavam no seu banheiro). Fechou a janela e acionou a calefação. Suas noites de sábado eram assim , de uma felicidade simples. A agência de acompanhantes mandava a seu apartamento uma moça que ele escolhia pela internet. No domingo, pela manhã, ela partia depois do café levando flores ou algum outro mimo que ele invariavelmente oferecia às convidadas. Com isso evitava os problemas conjugais e as despesas com advogados e psiquiatras de que eram vitimados seus sócios na corretora da seguros. "Haverá melhor maneira de gastar uma parte ínfima do meu dinheiro?", ele sempre perguntava a si mesmo. Ouviu passos no corredor. A moça bateu à porta com os nós dos dedos indicador e médio. Ele desconfiou ao sentir-lhe o cheiro, abrindo a primeira fresta. Ao vê-la, Samir teve certeza, por algum estranho motivo, que suas noites de sábado jamais seriam as mesmas. O mais sensato seria obedecer ao instinto, dar-lhe um cheque e mandá-la embora. Mas Samir jamais foi um homem sensato. Era um homem de coração simples.

11 comentários:

Anônimo disse...

Aguardem que a personagem feminina dessa estória é igualmente encantadora...

Anônimo disse...

Lindo como sempre!

Anônimo disse...

Amei de cara! Pelo visto a convidada já era de outros carnavais...

Anônimo disse...

Não é não Juki. Ele somente pressentiu que ela não seria apenas mais uma...

Anônimo disse...

Hum...tô gostando ainda mais!

Anônimo disse...

É esse o clima Juki...Tem que conhecer meu carrinho novo!!!!!

Anônimo disse...

Iriiii, já estás motorizada! Vamos marcar a banda! Bjs

Anônimo disse...

Tô sim e vamos marcar sim!

Anônimo disse...

Vamos sair pra fubanguear com a Tali esse findi???????????????? gatinhos, gatinhos, gatinhos. Esse é o clima!

Anônimo disse...

Ok. Todas convidadas pra dar uma volta!

Anônimo disse...

Boa, Mone! Adorei o clima...

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