A história de Lola chegou ao fim. Antes de darmos início à segunda série, apresentamos aqui no Trespalavrinhas uma bela narrativa do escritor e jornalista Caco Belmonte. A história "Joel" está no livro "Contos para ler cagando", ou no site pessoal do rapaz: www.cacobelmonte.com.br. Leiam aqui e, depois, passem por lá para conhecer mais. A gente recomenda.
Joel
Por Caco Belmonte
Ainda era noite quando saiu de casa. O vento soprava forte, dissipando a chuva que caía fraca, fininha. Precisava pedalar sete quilômetros antes de chegar ao asfalto. Sentia uma ardência insuportável no estômago, às vezes ficava meio zonzo e era acometido por uma dor de cabeça tonitruante. Não comera nada nas últimas vinte e quatro horas.
Desocupado, investiu derradeiros seis reais numa garrafa de cachaça, setecentos gramas de carne com osso, um pacote de arroz e dois maços de cigarro falsificado. Marilene, desde que tivera o bebê, nunca mais trabalhou. Não tinha carteira assinada, precisou abandonar a usina de reciclagem. O único rendimento era o que Joel trazia da rua, quando pegava algum biscate. Cortava grama, pintava casas e muros, mexia em eletricidade e conhecia um pouco de hidráulica. De uns tempos pra cá, por causa da bebida, perdera toda a freguesia.
Naquela madrugada, antes de sair, sorveu num gole o resto da garrafa que deixara escondida embaixo da casa. Suava frio, pedalando em direção ao asfalto. Pela primeira vez, sentiu uma pontinha de arrependimento por ter vendido o cavalo e a carroça. Poderia levar a criança ao médico, ao invés de sair para buscar o remédio. Desde o primeiro dia, ainda na maternidade, desconfiou que talvez não fosse o pai de Mariangela. A enfermeira explicou: às vezes, por causa da herança genética - Joel nunca entendeu o que isso significa - pode acontecer da criança sair mais clarinha, ou escura, conforme o caso.
Precisava de um trago. Não conseguia controlar a tremedeira das mãos. Pedalava rápido, a favor do vento. No bolso de trás da calça, enroladas num plástico, trazia a carteira de identidade e a receita do médico. Mariangela teve pneumonia, contraiu infecção hospitalar e ficou quase três meses internada. Saiu do hospital com quatro caixas de amostra grátis. Joel achou que fosse desnecessário buscar mais remédio no posto de saúde. Mariangela não tinha febre, nem tossia, conseguia dormir à noite e parecia ter se recuperado completamente. Marilene implorou, reiteradas vezes, lembrando que a continuidade do tratamento era uma recomendação do doutor.
Moravam num terreno úmido, invadido, numa área verde e sem infra-estrutura. Tinham água e luz, mas o esgoto corria a céu aberto, no valão defronte a casa. Foram os últimos a chegar no loteamento clandestino. Joel pegou as chaves do casebre, mudou-se com a mulher e não chegou a pagar o antigo proprietário. Marilene, escondida do marido, arranjou um empréstimo na cooperativa dos catadores de lixo. Tentou saldar parte do débito. Joel encontrou o dinheiro, mocozeado atrás do armário. Bebeu tudo no meretrício e Marilene foi expulsa da cooperativa. Logo em seguida engravidou.
O dia estava amanhecendo quando alcançou o asfalto. Dali até o posto de saúde eram mais quarenta minutos de pedalada. Chegou exausto, molhado e com uma insuportável dor de cabeça. Aguardou na fila, até sete e meia da manhã. Pegou a ficha de atendimento e esperou que abrisse a farmácia. Logo descobriu que o medicamento prescrito estava em falta naquele posto, e que talvez pudesse encontrá-lo na central de medicamentos do município, do outro lado da cidade. Foi onde topou com o Ernesto.
Ernesto, assim como ele, também fazia biscates. Tinha uma carroça, ganhou no jogo do bicho e investiu numa Kombi de frete. Fazia carretos, vendia lenha, carregava sacos de cimento e qualquer coisa que entrasse na caçamba, incluindo bodes, cabritos, galos e galinhas utilizados em rituais de umbanda. Naquela manhã, em frente à central de medicamentos, convidou Joel para ajudar num serviço. Trinta e cinco reais. Carregar e montar duas camas de solteiro e um armário de cinco portas. Coisa rápida, antes do meio-dia estaria liberado.
Joel não vacilou. Meteu a bicicleta na Kombi e partiu. Ainda bem que o Ernesto tinha cigarros e pagou um sanduíche de mortadela com café preto, suficiente para amenizar a horrível cefaléia. Difícil era controlar a tremedeira das mãos. Agüentou firme, até o último minuto. Precisava daquele dinheiro para tomar alguma coisa. O resto levaria pra casa. Mariangela estava sem febre, poderia esperar mais um pouco. Será que era mesmo sua filha ?
Faltavam quinze minutos para a uma hora da tarde quando terminou de apertar o último parafuso do armário. Recebeu o dinheiro, pegou a bicicleta e saiu pedalando em direção à central de medicamentos. Conseguiu obter uma caixa do remédio. Naquele momento, sentindo-se aliviado, resolveu que merecia tomar um traguinho de butiá.
Parou no bar da velha Mirtes, lá no asfalto, pouco antes de chegar na estrada de chão batido. Vinha cansado, suado e fedorento. Encostou a bicicleta em frente ao boteco e foi logo pedindo um butiá. Tomou dois martelos, comprou um maço de cigarros e ficou por ali, escorado no balção, sentindo os primeiros vapores do álcool. Era uma sensação indescritível. Revigorante.
A Mirtes vendia de tudo naquele bar, inclusive as sobrinhas de quinze e treze anos. Trepavam num cubículo sórdido, a dez reais, em cima de uma cama guenza. Joel ainda não estava bêbado quando entrou naquele quartinho encardido. Mandou vir uma cerveja e a guria de quinze, que era mais parrudinha. Beijou na boca, pelou, bebeu cerveja no umbigo e serviu-se daquele corpo como se fosse um bárbaro ensandecido. Depois ainda ofereceu cinco reais, pra fazer por trás, escondido da velha. Ela aceitou.
Saiu de lá triunfante. Contornou o balcão, piscou pra dona da casa e procurou uma cadeira. Sentou à mesa perto da janela, de onde podia enxergar o movimento dos carros no asfalto. Tomou outra cerveja, acendeu um cigarro e fumou descansado, com gosto. Pediu um litro de cachaça, pagou a conta. Botou a garrafa embaixo do braço, subiu na bicicleta e saiu pedalando, meio torto, desequilibrado. Eram quatro horas da tarde.
Talvez as coisas pudessem ter se encaminhado de outra forma, caso Mariangela não tivesse nascido branca. Desconfiou, logo de cara, daquele alemão que trabalhava no escritório da cooperativa, sempre dando em cima da Marilene. Também nunca entendeu aquela explicação da enfermeira. Mariangela tinha nascido branca, de olhos claros, e isso era suficiente.
Pior de tudo eram os falatórios; vizinhos, parentes, conhecidos e até o pessoal da sinuca. Joel ouvia os comentários, nitidamente, mas fazia de conta que não. De certa forma, pensou, talvez Marilene não fosse tão culpada. Foi ele quem dormiu fora de casa, inúmeras vezes, caindo de bêbado, nos botecos de sinuca ou na putaria. Fazia isso desde sempre, mesmo antes da criança nascer.
Naquele dia, quando chegou em casa com o remédio, não estanhou que ele estivesse ali, àquela hora da tarde. Também não quis brigar, nem impediu que as duas entrassem no fusca do alemão. Entendeu, permitiu que fossem embora. Não disse nada, apenas ficou olhando. Esperou o carro partir, levou a bicicleta para os fundos e entrou na casa. Passou o resto da tarde atirado no sofá, bebendo, fumando e escutando AM no radinho a pilha.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
sexta-feira, junho 10, 2005
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8 comentários:
Grande Caco Belmonte! Contribuindo pra felicidade dos leitores do Trespalavrinhas...
O caco mesmo gosta de dizer que é um contador de histórias. Percebam que ele é um seco, no melhor sentido da expressão. Nada de entrar muito em detalhes. E também não tem nada de brincar com as palavras. É tudo muito objetivo. Parece, a mim, um realista clássico. Estou errado, Caco?
O estilo é ótimo, objetivo. A estória tá muito boa, mas achei um pouco pesada, triste...
os blogeuiros nao sabem, ou fingem que nao sabem, mas os comments sao sempre (99%) a seu respeito... fogem de longe da palavra.
???
Que viagem...
Que mala...
Amigos, colegas e todos que freqüentam o "três palavrinhas": 1) a boa alcunha de "seco" me serve. 2 ) Minha tentativa de literatura é mesmo na penúria, só o osso. 3 )Realismo objetivo e de poucas palavras é o que busco, narrando cenas, num texto que desvie das firulas e literatices. Difícil opção de estilo. Poupo as palavras, mas não economizo no trabalho de construção. É aquela velha mania, copiada do Assis Brasil que a todos ensina, em que nada é escrito antes de concluir o mapa da narrativa. Lá no meio tudo mudo, ok. Mas ainda assim é preciso começar de alguma forma. Se antes de começar a primeira linha o sujeito sabe o final, tanto melhor. Maiores as chances de que a narrativa dê certo. Isso não é regra, óbvio. Em literatura, não existe verdade absoluta. Aprendi e guardei isso também. Abs!
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