Acho que a inspiração pra esse texto é bem óbvia. Por isso, sem comentários. Deliciem-se.
As cores do dia
Escutou durante três horas os lamentos de uma amiga que se confessava refém de uma tristeza atroz provocada pela falta de perspectivas. Não questionava a sinceridade daquele sofrimento, mas não compreendia a causa. A vida lhe parecia tão simples, colorida. Abraçou a amiga demoradamente à saída da casa de chá. Afagou aquele corpo que a dor moral tornava menor, mais cheio de ossos. Por mais calor que a amiga lhe exigisse, deixou o encontro intacta, radiante. Se houvesse ainda sol, seus cabelos provocariam reflexos e acidentes de trânsito, pensou. No carro, enquanto Sting explodia nos auto-falantes suas odes ao amor entre os povos e à preservação da natureza, ficou refletindo sobre nessa tristeza um tanto abstrata que fustigava os interiores da amiga, um mal cinzento que desconhecia em si. A amiga queixava-se por quê? Sentia cólicas? Perdera o emprego? Somente calvários físicos ou problemas práticos eram dignos de promover infelicidade, ela pensava. E foi quando pensou nisso que teve a impressão, uma discreta impressão, de que sua calça estava levemente mais justa na cintura do que o normal. Parou o carro em pânico. Panvel. Correu à balança. Ufa! Nenhum quilograma a mais, constatou, os cantinhos da boca quase encostando nas orelhas. Voltou ao carro. Sting continuava gritando até as veias do pescoço atingirem a espessura de dedos. O resto do dia passou rápido. Cabeleireiro. Shopping. Pipoca doce. Locadora de vídeo. Em casa, sentou-se no meio da sala com seu suprimento de papéis coloridos e fitas mimosas, tesoura e fita adesiva. Precisava embrulhar uns presentes para os aniversários da semana. Fez o trabalho enquanto a TV passava a primeira novela da noite. Lembrou que havia batatas na geladeira e, com água na boca, tomou uma decisão: exigiria seu prato predileto. Do nada, do além, veio-lhe a imagem da amiga queixosa. Sentiu-se até culpada por não compreendê-la e, pior, sequer imaginar o que seria sofrer por coisas imaginárias como "falta de perspectiva". Ouviu a chave girando na fechadura. Seu peito se estufou de alegria. Parou diante do espelho: será que estava com a cara de bailarina de caixinha de música que ele adorava. Estava, sim. Ela sabia que sim. Sabia que também existiam aquelas luzes inexplicáveis jorrando-lhe dos olhos com a mesma sinceridade da sua essência cristalina. Uma luminosidade sincera e comovente que podia, mesmo, fazer com que alguém aumentasse sua crença no gênero humano. Ficar feliz com barulho de fechadura e fita mimosa é para poucos, ela pensou, checando se as unhas pintadas na cor "melancia" tinham ficado mais lindas do que na versão "tomate". Enquanto corria em direção à entrada, compreendeu que a amiga na verdade sofria de uma espécie de disfunção visual: não era capaz de enxergar as cores que a vida deve ter.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
quarta-feira, julho 13, 2005
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8 comentários:
TODAS AS CORES EM UM!
FITAS MIMOSAS SÃO PARA POUCOS, MAS COMPARTILHAR DO COLORIDO QUE A VIDA DEVE TER É REALMENTE SÓ PARA UM... NÃO É, TITITI?!
É. Só posso dizer o mesmo. E chega, que na rua é muito feio! Bj.
Acho que depende mais da pessoa tornar ou não uma amizade superficial. Não é questão de gênero, não. Depende do tipo e grau de amizade. Estou enganada? Pois tenho amizades superficiais com homens e mulheres, e amizades profundas com homens e mulheres também. Sei lá. Sem polemizar. Just a point of view.
Cada dia que passa me encanto mais com o Tititi!!! Uma capacidade única de escrever, de brincar com as palavras... Um talento que encanta a todos, principalmente a excêntrica Karina Chaves. Gustavo, parabéns pela história (de certo modo bem real). Bjus da sua fã!!! Ana Brenner - Karina cuida bem deste guri... o teu tititi!!!!
Querida Ana, assim eu fico vermelho. Mas não é que você acertou na mosca! Nunca havia pensado nisso, ao mesmo não nesses termos, mas, lendo seu generoso comentário, descobri que o que eu faço é mesmo brincar com as palavras. Brinco com elas do mesmmo modo como já brinquei com soldadinhos. Bj,
Dani, você quer mesmo criar polêmica, né? O que eu, particularmente, acho ótimo! Polêmica faz a gente pensar um pouquinho além da administração das demandas do cotidiano: abastecer o carro, ir ao supermercado, pagar as contas, visitar o pai ou a mãe ou os dois, suportar o chefe-mala, driblar os ataques de quem flauteia o desempenho do nosso time. Polêmica é lega. E, mais uma vez, muito obrigado pela sua leitura e preciosas observações. A gente tem que falar ao vivo. É só combinar. Abraço,
Um textinho assim tão delicado, colorido e cheio de luz faz bem pra alma de qualquer pessoa que o leia. E penso que a superficialidade nos é necessária para muitas ocasiões e pessoas. Pra quê profundidade em tudo? Não é qualquer um que merece uma carga tão forte de nossas energias... digamos que seja um pouco de self-preservation, salutar para todos.
Ai, ai... um texto como esse coloca qualquer coração nas nuvens. Imagine, então, quando se sabe que ele foi inspirado por alguém com gostinho de KAramelo e o aconchego da nossa KAsa. Muito melhor... Vcs são os tititi's mais fofos do mundo! Bjús
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