Devaneios, alguma literatura e desabafos...

quarta-feira, julho 13, 2005

Acho que a inspiração pra esse texto é bem óbvia. Por isso, sem comentários. Deliciem-se.


As cores do dia

Escutou durante três horas os lamentos de uma amiga que se confessava refém de uma tristeza atroz provocada pela falta de perspectivas. Não questionava a sinceridade daquele sofrimento, mas não compreendia a causa. A vida lhe parecia tão simples, colorida. Abraçou a amiga demoradamente à saída da casa de chá. Afagou aquele corpo que a dor moral tornava menor, mais cheio de ossos. Por mais calor que a amiga lhe exigisse, deixou o encontro intacta, radiante. Se houvesse ainda sol, seus cabelos provocariam reflexos e acidentes de trânsito, pensou. No carro, enquanto Sting explodia nos auto-falantes suas odes ao amor entre os povos e à preservação da natureza, ficou refletindo sobre nessa tristeza um tanto abstrata que fustigava os interiores da amiga, um mal cinzento que desconhecia em si. A amiga queixava-se por quê? Sentia cólicas? Perdera o emprego? Somente calvários físicos ou problemas práticos eram dignos de promover infelicidade, ela pensava. E foi quando pensou nisso que teve a impressão, uma discreta impressão, de que sua calça estava levemente mais justa na cintura do que o normal. Parou o carro em pânico. Panvel. Correu à balança. Ufa! Nenhum quilograma a mais, constatou, os cantinhos da boca quase encostando nas orelhas. Voltou ao carro. Sting continuava gritando até as veias do pescoço atingirem a espessura de dedos. O resto do dia passou rápido. Cabeleireiro. Shopping. Pipoca doce. Locadora de vídeo. Em casa, sentou-se no meio da sala com seu suprimento de papéis coloridos e fitas mimosas, tesoura e fita adesiva. Precisava embrulhar uns presentes para os aniversários da semana. Fez o trabalho enquanto a TV passava a primeira novela da noite. Lembrou que havia batatas na geladeira e, com água na boca, tomou uma decisão: exigiria seu prato predileto. Do nada, do além, veio-lhe a imagem da amiga queixosa. Sentiu-se até culpada por não compreendê-la e, pior, sequer imaginar o que seria sofrer por coisas imaginárias como "falta de perspectiva". Ouviu a chave girando na fechadura. Seu peito se estufou de alegria. Parou diante do espelho: será que estava com a cara de bailarina de caixinha de música que ele adorava. Estava, sim. Ela sabia que sim. Sabia que também existiam aquelas luzes inexplicáveis jorrando-lhe dos olhos com a mesma sinceridade da sua essência cristalina. Uma luminosidade sincera e comovente que podia, mesmo, fazer com que alguém aumentasse sua crença no gênero humano. Ficar feliz com barulho de fechadura e fita mimosa é para poucos, ela pensou, checando se as unhas pintadas na cor "melancia" tinham ficado mais lindas do que na versão "tomate". Enquanto corria em direção à entrada, compreendeu que a amiga na verdade sofria de uma espécie de disfunção visual: não era capaz de enxergar as cores que a vida deve ter.

8 comentários:

Anônimo disse...

TODAS AS CORES EM UM!
FITAS MIMOSAS SÃO PARA POUCOS, MAS COMPARTILHAR DO COLORIDO QUE A VIDA DEVE TER É REALMENTE SÓ PARA UM... NÃO É, TITITI?!

Anônimo disse...

É. Só posso dizer o mesmo. E chega, que na rua é muito feio! Bj.

Anônimo disse...

Acho que depende mais da pessoa tornar ou não uma amizade superficial. Não é questão de gênero, não. Depende do tipo e grau de amizade. Estou enganada? Pois tenho amizades superficiais com homens e mulheres, e amizades profundas com homens e mulheres também. Sei lá. Sem polemizar. Just a point of view.

Anônimo disse...

Cada dia que passa me encanto mais com o Tititi!!! Uma capacidade única de escrever, de brincar com as palavras... Um talento que encanta a todos, principalmente a excêntrica Karina Chaves. Gustavo, parabéns pela história (de certo modo bem real). Bjus da sua fã!!! Ana Brenner - Karina cuida bem deste guri... o teu tititi!!!!

Anônimo disse...

Querida Ana, assim eu fico vermelho. Mas não é que você acertou na mosca! Nunca havia pensado nisso, ao mesmo não nesses termos, mas, lendo seu generoso comentário, descobri que o que eu faço é mesmo brincar com as palavras. Brinco com elas do mesmmo modo como já brinquei com soldadinhos. Bj,

Anônimo disse...

Dani, você quer mesmo criar polêmica, né? O que eu, particularmente, acho ótimo! Polêmica faz a gente pensar um pouquinho além da administração das demandas do cotidiano: abastecer o carro, ir ao supermercado, pagar as contas, visitar o pai ou a mãe ou os dois, suportar o chefe-mala, driblar os ataques de quem flauteia o desempenho do nosso time. Polêmica é lega. E, mais uma vez, muito obrigado pela sua leitura e preciosas observações. A gente tem que falar ao vivo. É só combinar. Abraço,

Anônimo disse...

Um textinho assim tão delicado, colorido e cheio de luz faz bem pra alma de qualquer pessoa que o leia. E penso que a superficialidade nos é necessária para muitas ocasiões e pessoas. Pra quê profundidade em tudo? Não é qualquer um que merece uma carga tão forte de nossas energias... digamos que seja um pouco de self-preservation, salutar para todos.

Anônimo disse...

Ai, ai... um texto como esse coloca qualquer coração nas nuvens. Imagine, então, quando se sabe que ele foi inspirado por alguém com gostinho de KAramelo e o aconchego da nossa KAsa. Muito melhor... Vcs são os tititi's mais fofos do mundo! Bjús

Arquivo do blog