Os dois e a fada
Fosse um encontro convencional, Laura o acompanharia numa segunda garrafa de vinho. Mas o frio seco de 3° às 2h30min da madrugada, a vontade de chorar por múltiplos motivos misturados como as sobras de novelos de lã esquecidos numa caixa apertada e a certeza da despedida que, embora tácita, aproximava-se em marcha obstinada, tudo isso pedia o conforto de uma caneca de chocolate. E mais. Como se estivesse grávida, seu desejo brotava com requinte inusitado. Queria que a caneca fosse adornada por lascas de baunilha natural desidratada. Onde arrumar aquilo, àquela hora? Ele sabia. Ah, se ele não soubesse seria mais fácil, ela pensou. Mas ele sempre sabia. Deixaram o restaurante e foram até o café. Enquanto ele guiava o carro, ela o observava na semi-escuridão. Já sentia saudades, a única emoção definida. Chegaram. Por birra em estado bruto, ela quis que se sentassem às mesinhas da rua, enfrentando a intempérie como dois insones desbravadores de territórios inóspitos. Ele ofereceu-lhe o sobretudo. Ela recusou, com trejeitos de educação francesa, um travo amargo nas extremidades do sorriso que lhe custou grande esforço. Vertiam das caixas de som umas canções estrangeiras excessivamente adocicadas, meio cafonas, que ele devia estar detestando, Laura pensou. Ela também detestaria, se pudesse prestar atenção nisso. Eram duas pessoas chatas, ela sabia, e se tornavam mais chatas quando juntas. A calçada sob a mesa estava coberta de pétalas de rosas. E logo ela entendeu de onde vinham. “Olá, olazinho, minhas divinas criaturas da noite ”, saudou uma bicha alta e musculosa, vestindo avental encardido, com logomarca do estabelecimento bordada na altura da barriga. Barba rala hiperdelineada, 40 anos, cachecol violáceo, lentes de contato azuis, talão de comandas e caneta a postos. Laura parecia não ter certeza se deveria fazer os pedidos ao grandão. O outro foi mais rápido e ditou as instruções do chocolate com lascas etc etc da gravidez psicológica e pedindo a si próprio um expresso duplo com dois dedos de conhaque. A bichona se foi. Eles ficaram a sós. Olhavam-se em silêncio. Profundamente, como se nunca antes tivessem reparado nos respectivos traços. O garçom voltou com os pedidos. Cobriu Laura com uma manta de lã e saiu. Regressou em poucos segundos com um saco rústico e começou a jogar pétalas de rosas sobre os dois. “Sim, sim, sim. Eu sou a fada madrinha desses pombinhos malditos. Ah, como eu brilho! Olhem só! Adoro pombinhos assim, tipo under. Façam seus pedidos, meus amores. Peçam filhos, promoções, viagens, riqueza, saúde e bolsas adidas, serenidade e CDs importados. Tudo eu lhes darei”, ele falava, abandonando-se ao ritmo da canção italiana que escutavam. Laura e o outro tiveram que rir. E riram a estourar. “Certo, já escutei. Tudo será atendido. Tudo, tudo”, bradou a bicha, voltando para o interior do café. Ele envolveu suas mãos de pelica. Levou-as ao rosto e consumiu-lhes o olor do couro que se misturava ao perfume dos pulsos da Laura. Teve ganas de morder. Conteve-se. Comeria com facilidade as mãos com luvas e tudo. Ela ergueu-se da cadeira branca, abriu a manta emprestada e acomodou-se em seu colo, aninhando a cabeça no ombro do outro. Laura não gostava muito daquele perfume. Preferia aquele do qual não lembrava o nome. “Quero voltar”, ela anunciou, a voz anasalada pelo choro mal-contido. Ele deixou duas notas junto às canecas vazias. Abraçados, caminharam em silêncio até o carro.
G.M.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
segunda-feira, setembro 26, 2005
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5 comentários:
Gus,
Estou checando uma sugestão sua. Baixei 14 horas de Bill Evans, ..., como sempre exagerei, hehehe.
Depois que escutar bem comento.
Um abraço pra vc e um beijo pra Taline.
Impressionante essa do "café da goethe", Dani. Um amigo também citou. Deve estar parecido. Legal você ter gostado.
Max, meu chapa, não se assuste com o exagero. Boa música a gente nunca tem o bastante. O negócio é som na caixa. Abraço a vocês dois,
Impressionante essa do "café da goethe", Dani. Um amigo também citou. Deve estar parecido. Legal você ter gostado.
Max, meu chapa, não se assuste com o exagero. Boa música a gente nunca tem o bastante. O negócio é som na caixa. Abraço a vocês dois,
Uma graça esse texto, as usual!
Tnks, my dear anonymous. Você é muito gentil.
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