Há exatos oito dias (e algumas horas...), entreguei à Tali um presente sem cartão. Falha grave para um homem que tem as palavras na mais alta conta. Em algum lugar da minha torre de comando, eu o estava escrevendo. Ela merece mais, lógico. Mas eu não faço melhor. Aí está o primeiro cartão de aniversário público da história de Porto Alegre. Ao menos nos últimos 30 anos. Leiam que eu vou dormir. Está tarde pra chuchu.
10.950º despertar
Está feito. Tenho trinta, ela pensou, quando todos os seus nervos e músculos se preparavam para um salto decidido da cama de que tanto gostavam (gostavam ela, seus nervos e seus músculos e cada centímetro de pele). Aguardara pela data com tamanha expectativa que agora, mesmo acordada havia bons minutos, temia abrir os olhos no escuro do quarto. Um medinho gelado sob a língua. Vou ficar mais trinta assim, repousando, brincou. Enquanto ganhava tempo, tentou enxergar sem ver. Tão fácil...
Sabia que à sua volta aguardavam-lhe os itens mais íntimos da porção física do próprio reino: a TV que, ligada sem volume, zelava-lhe o sono; o aparelho de som; o armário branco que precisava ter as portas sempre bem fechadas; as roupas da véspera que, por mais tarde que chegasse tinham que no mínimo ser dobradas e acomodadas sobre uma cadeira; o copo deixado pela metade com água gaseificada, a única disponível na casa; as bolsas penduradas lado a lado como que a disputar entre si o privilégio de lhe servir de dama-de-companhia para o próximo dia e os três livros que esperavam o momento de saltar em fila para dentro de uma delas.
Na escuridão das pálpebras cerradas, reconheceu um a um esses singelos confortos, a apreensão de decepcionar-se com a chegada da 30ª alvorada foi perdendo terreno para uma vontade incoercível de marchar rumo a todos os próximos capítulos, de se esbaldar com as seguintes fatias de tortas de maçã, de se embriagar com as subseqüentes taças e cálices, de se inebriar com os amores por vir. Arder. Queria sentir mais cheiros. Abrir botões e presentes. Morder chocolates e lábios e picolés. Sentir nas solas dos pés a areia quente. Sussurros e resfolegares. Desejava mais cinema e brique e redação. Compras, claro. E cachorros. Olhares que se encontrassem. Confidências. Queria perder o sono e ganhá-lo de volta por mérito. Queria ver-se nos retratos congelados em câmeras de telefones. Vozes e perfumes amigos. E tatuar brocardos e ideogramas.
Pensou na mãe. Na cachorra. Nos irmãos. Pensou em todos os lugares por que passara e pelos quais ainda caminharia ao lado da própria sombra semovente em formato de letra S. Foi assaltada por um choque explosivo de passado e futuro, um sanduíche que tinha como recheio essa marca de três décadas. Lágrimas serenas lavaram-lhe o rosto. Abriu os olhos encharcados. Pensou na sucessão de minutos que haviam se convertido naqueles dez mil, novecentos e cinqüenta dias e noites. Atendeu finalmente ao apelo dos nervos e músculos. Está feito, pensou em voz alta, enquanto abria as janelas da sala, um vento de início de primavera a lhe embalar os cachos escuros, tenho trinta.
G.M.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
domingo, outubro 16, 2005
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4 comentários:
Surpresa! Achou que o primeiro comentário iria ser seu,né?(rs...) Amei o cartão do Tititi,Gata Garota! Só uma grande amiga como vc conseguiria um dedicatória incrível e pública como esta.Todo carinho do mundo pra ti.E o cartão "público" tá o máximo dos máximos como tudo que o GM,escreve, é claro. Sucesso para essa dupla de "palavrinhas" que eu Adoro de Paixão.
Beijokas,
"Gata Garota"
Hum-hum. Então tá. Não sei o porque da surpresa. Fato notório. O que acontece é que o Gus conseguiu escrever sobre mim melhor do que eu mesma faria. E isso faz parte do sangue, suor e lágrimas e da bendita veiazinha que ele carrega no peito no corpo e na alma. I know. A mania que ele tem de prestar atenção nos movimentos e palavras e olhares e devaneios da gente. Okey, Gus. Sei que não são todos. Transbordo por estar entre os que te tocam, e conseqüentemente, mais tarde, entre as tuas personagens, nem que seja por uma linha, como o modo delicado e enlouquecedor de segurar uma colher de cafezinho, né? O fato é que dessa vez não se tratou de ficção (não vou mais entrar na polêmica de que ela não existe). O teu cartão é recheado de mim e de detalhes pra poucos. AMEI, assim, em caixa alta. Porque não poderia ser diferente. Em tempo: Acho que nos 31 a inspiração vai estar no ar. Frio. Cinza. Lindo.
Quisera eu ter a proximidade que o G.M. tem de ti. E o conhecimento desses detalhes, que como tu mesma diz, são pra poucos. Quem sabe um dia, se tu deixar.
O que dizer, é TUDO isso aí.
Um abraço Gus,
um beijo Taline.
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