Devaneios, alguma literatura e desabafos...

segunda-feira, novembro 28, 2005

Onde vive a potência de Verissimo?

Com as belas edições com as quais a Companhia das Letras está resgatando toda a obra de Erico Verissimo, aproveito para descobrir ou redescobrir esse autor cuja unanimidade torna, paradoxalmente, esquecido. Convenci-me: Verissimo é forte. Não fosse, jamais haveria sobrevivido. E é justamente essa força discreta e nem sempre dissecável que torna a leitura de sua obra uma experiência fascinante.

A força está aonde? Eu jamais vibrei com seus livros, não o vejo como um escritor brilhante e sempre preferi seus trabalhos tipo lado B.

Li seu primeiro romance (acho que é o primeiro), “Clarissa”, de 1933, e agora ataco a continuação, “Música ao longe”, de 1935. E chego à conclusão de que, exceto em casos de fenômenos essencialmente midiáticos, não há quem atinja reconhecimento internacional sem conter em seu trabalho um quê de grandiosidade.

A genialidade de Verissimo, repito, é forte, sobrepõe-se ao seu estilo tépido, à condução às vezes burocrática da narrativa e ao ritmo que vez por outra quase condena sua literatura à pasteurização. Com todos esses riscos, o brilho persevera.

Não sei exatamente em que consiste essa grandeza tão resistente, mas desconfio que tenha uns ares iconográficos, ou seriam cinéticos? Definições, de todo modo, que só têm sentido pra mim.

Acho que a potência da obra de Verissimo reside em sua capacidade de pintar - sim, vejo-o mais como pintor do que escritor – gigantescos painéis realistas. Assemelha-se também a um diretor de cinema – e a crítica formal já se encarregou de demonstrar que Verissimo se vale de movimentos de câmera, de lente e mesmo recursos de edição (os cortes, as aproximações abruptas, os mergulhos no passado, as pinceladas não-lineares).

Ao contrário da saga de “O tempo e o vento”, que só surgiria a partir de 1949, “Clarissa” e a seqüência “Música ao longe”, porém, não são esses painéis colossais. São pequenos quadrinhos que o próprio autor considera obras menores, no pior sentido da expressão. Guardam, no entanto, todas as marcas do autor, inclusive o gosto pela incursão na história do Rio Grande do Sul e do Brasil.

Depois de “Música ao longe”, quero ainda ler “Saga”, “Noite”, “O prisioneiro” e, quem sabe, reencontrar-me com a gigantesca aventura humana de “O tempo e o vento”. Como dizia o protagonista daquela boa peça, porém, há tanto a fazer, e tão pouco tempo. Quem sabe?

G.M.

2 comentários:

Anônimo disse...

É isto mesmo, Dani. As datas estão corretas. E a comemoração também. Apesar de eu ser só tecnicamente gremista, associo-me aos brados. Muito justos. Abç, Gus.

Anônimo disse...

Quem sabe? O tempo e o vento sabem. Mas não estão muito dispostos a nos dizer... Só vendo qualé. E assim é.

Oi Dani! Beijos pra ti!

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