
Ontem à noite assisti com atraso ao documentário Vinícius. Cumpriu as expectativas criadas por semanas de recomendações de amigos e resenhas, invariavelmente superentusiastas do trabalho de Miguel Faria Jr. Dos defeitos, notei dois ou três detalhes que se apequenam, que ficam bobos – tanto a eles nem vou me ater aqui – frente à magnanimidade do filme.
Faria fatiou a vida do poeta. Abre um breve resgate genealógico, entrecortado por dramatizações de atores globais e clipinhos de bons artistas da música brasileira contemporânea; vem a fase da poesia formal, com firme pé na tradição. Depois, o início da carreira diplomática, a incursão pelo mundo do jazz norte-americano. Mais tarde, o período Bossa Nova dos anos 50, o primeiro namoro com a cultura afro, a seguir. Além, a perda do bom emprego e o começo tardio da dedicação profissional à música e a derradeira década de shows ininterruptos ao lado de Toquinho, principalmente, e de parceiros eternos como Chico Buarque, Edu Lobo e, claro, Tom Jobim. Nesse finalzinho de carreira e trajetória, a popularidade internacional e a aproximação com o Candomblé.
Grifo duas considerações que não são minhas, mas do cineasta através dos testemunhais escolhidos a dedo: primeiro, pela formação poética sólida, erudita, Vinícius conseguiu fazer melhor do que os modernistas de vinte e poucos (ou trinta e poucos) a fusão com a cultura mundana, com o cotidiano dos anônimos. E surpreendi-me ainda com o que ao mesmo tempo já esperava: o poeta carioca era um sedutor de gente, em geral, e de mulheres deslumbrantes, em especial.
Lamentável e compreensível é a ausência de João Gilberto na fita. Impagáveis são as cenas de pilequinho com Tom Jobim e o momento abandonado do poeta dormindo, quando uma mão de mulher surge do canto inferior esquerdo da tela para lhe afagar os poucos cabelos enquanto ele fala no sono. Também inesquecíveis são os depoimentos de Chico Buarque, que sob ponto de vista privilegiado de quem conviveu com Vinícius desde a própria a infância sobre ele fala sem veneração ou idolatria, mas estufado de admiração, carinho de amigo, afeto de filho, respeito de discípulo e uma profunda saudade alegre e melíflua como o riso do poeta que, ao rir, sacudia-se rindo com o corpo inteiro.
Agora, não falo mais pra não estragar. Acho que é a última semana e restam duas salas de exibição. Corram porque, depois, só no DVD, naquela telinha pequena da casa da gente, incompatível com a grandeza do poetinha.
G.M.
4 comentários:
Muito bem Tt,muito bem!
Beijim
há!!!! Finalmente! Te disse que valia a pena, que é uma obra-prima. Algumas considerações: acho que João Gilberto não apareceu porque não quis. Provavelmente, o toc característico o impediu de gravar um depoimento a tempo de entrar no documentário.
Depois do filme, descobri porque lá,lá,lá,lá,lá surge no meio de 'quando a luz dos olhos teus na luz dos olhos meus resolvem se encontrar...'
Nada como o uísque para criar uma linguagem nova e por vezes incompreensível.
Sempre que dá dou uma lida nos teu textos mas essa crítica ficou acima da crítica, tava a horas a fim de ver e vou dar 1 jeito pra hoje. Valeu por ter o dom de mexer com o sentimento das pessoas. Um abração, Dé
Sissi, fiu ver em boa parte por recomendação tua. Era tudo verdade. Dé, saudade de ti. Venha mais. Abçs,
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