
Chego ao fim de Liquidação, do judeu húngaro Imre Kertész. Pela foto aí ao lado, vocês notam que há pouca chance de ele não ser, na melhor das hipóteses, um cara estranho. Meu amigo Fernando O'Donnell já havia me advertido: "esse Kertész não é estranho, é chato pra burro!". Coisa que naturalmente se refleto em sua obra.
Avanço à última página com aquela sensação típica provocada pelos bons livros: não sei exatamente o que achei. O que é um bom sinal. Se não se pretende encerrar a avaliação de um trabalho no nível do “gostei x não gostei”, um ponto favorável ao livro é sempre seu poder de impacto, sua capacidade de provocar estranhamento, perplexidade ou mesmo emputecimento. Pessoalmente estou mais inclinado a esse último item. Independentemente, claro, do que se possa chamar “valor artístico” da obra, que considero riquíssima. Apesar dos comentários que virão a seguir, adianto que vale a pena ler. Muito. É uma experiência marcante. Mesmo que pela aparente chatice.
Liquidação é literatura experimental urbana e contemporânea. Note-se os fortes acentos na tradição judaica, note-se ainda o fato de ser tecida num dos países da extinta cortina de ferro. Note-se, por último e mais do que tudo, o fato da ausência de inimigos públicos que tanto marcou a cultura da Europa Oriental pós 1989: os comunistas chapa-branca não tinham mais os capitalistas ocidentais como justificativa para manter o totalitarismo e a repressão política, enquanto aqueles que eram considerados inimigos do regime não tinham mais opressão contra a qual se rebelar ou da qual fugir ou pela qual arquitetar críticas veladas, discretas, subjetivas.
A literatura de Kertész, parece-me, resulta um pouco desses paradigmas perdidos ou, no mínimo, embotados. Há um experimentalismo exagerado que torna confusa a relação entre fim e meio: creio que o experimentalismo deve ser o meio para que se faça boa literatura, e não um fim em si. Falta-lhe generosidade. É quase um autor desumano.
Já falei aqui sobre a imagem que tenho, quando leio um bom romance, de estar sendo conduzido pelo autor pela travessia da narrativa. Lendo Kertész, com sua prosa potente, rica, merecedora do Nobel, sinto que ele me abandona no meio do caminho. Concentrado na tarefa ultraegocêntrica de satisfazer a si próprio como um neurótico que tenta bater os próprios recordes, Kertész descuida-se, exagera nos “espaços não narrados” e passa a escrever para si próprio, o que, penso, é o único pecado mortal na literatura. Mesmo assim, repito, o crime compensa.
G.M.
Um comentário:
Este vai pra lista, então. Tnks. Bj,
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