Contabilidades e escavações genealógicas
REVENDO minha árvore genealógica, repasso os nomes dos meus avós paternos. Ela chamava-se Maria Carlota de Assis. Além da sonoridade desse Maria Carlota, havia o quê italiano do Assis. Uma combinação de mestre. O avô,Honório Grawunder Machado. Não sei se o Grawunder se escreve assim, ele capou-o da identidade quando o eixo do mal começou a descer a rampa no final da II Grande Guerra. Seu pré-nome é uma versão brasileira para o Honore, de Balzac. Desse casal que em nada combinava, herdei o viralatismo. Somado ao supercomum Souza do ramo materno.... Mas há outras coisinhas.
DE HONÓRIO: cabelos de menos na cabeça e em excesso no resto do corpo; os óculos fortes; a relação tempestuosa com a política; a essência violenta (no meu caso, melhor disfarçada); a vontade de agir sem saber ao certo como. Ao contrário dele, porém, sou baixo e minhas mãos, pequenas. Parece que teve muitos filhos, o sacana. Mais do que os cartórios computam. Do seu jeito, amava as mulheres. Amava-as a explodir. Acho que amou Carlota em desespero pungente e jamais aceitou sua partida prematura, odiou perdê-la para um tosco bloco cirúrgico. Deixou-a lá inteira e, depois, chamaram-no para buscar um boneco inanimado de carne fria.
DE CARLOTA, mulher linda (assim se parece nas fotografias), saúde um tanto débil e três gotas de angústia no olhar reflexivo, restou-me o gosto pela arte, sobretudo a literatura, e outros badulaques que, a quem precisa ganhar o pão ou roubá-lo, pouca serventia têm. Costumava escrever cartas aos analfabetos incapazes expressar suas intenções às amadas caipiras. Eles pediam permissão ao meu bisavô, postavam-se à janela da sala e ditavam a idéia bruta, envergonhados, olhando para as pontas das botas esfoladas. Carlota dava um trato no material. Com a bagagem da literatura francesa permitida às moças da época (início dos anos 30), editava aquelas impressões primárias do ardor alheio, transformando-as em missivas que mais tarde seriam confeitadas com perfume de farmácia antes de chegar ao destino, provocando lágrimas e outras secreções.
SEU ainda namorado Honório, enquanto isso, admoestava empregados ignorantes, assassinava animais silvestres com as espingardas de caça que colecionava ou transportava pedras de construção em uma carroça puxada por quatro cavalos. Vez por outra mordia as próprias mãos num ataque de cólera. Um sujeito animado.
FICO pensando se, no futuro, haverá um eventual neto a fazer essas contabilidades genealógicas. E, havendo neto, imagino o que de mim nele resistirá.
G.M.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
quinta-feira, setembro 29, 2005
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Um comentário:
Maria Carlota, que nome bonito!
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