Crônica do tobogã de asfalto
MAIS ou menos nos 50% de “O Amante Detalhista”, novela ligeira do argentino radicado no Canadá Alberto Manguel, já espicho o olho ao próximo da fila, “Mandrake – A Bíblia e a Bengala”, de Rubem Fonseca. E sinto frio na barriga. O mesmo que sentia aos quatro ou cinco anos, no banco traseiro do Fusca creme de meu pai, quando descíamos a 400 Km/h a Mostardeiro e eu percebia, felicíssimo, gritando como um maníaco, minhas entranhas tentando fugir pela garganta. O pai nunca falhou. Nem o Fusca, que talvez ainda rode em algum subúrbio ou tenha reencarnado numa geladeira ou lata de Pepsi. Daria tudo certo, claro. Mas eu tinha medo. Um medo bem comum: o de virar patê. Nada reduzia, claro, a delícia do confronto.
AGORA, mesmo sabendo que o contrário é mais provável, desconfio que Fonseca não sobreviva a mais um romance. Será? Gostaria de ajudá-lo. De dar-lhe o que pudesse levar da minha massa cinzenta e das letrinhas que estão cravadas ali. Dar-lhe-ia minha imaginação e passaria o resto dos dias sem um único pensamento novo na tela mental. Daria meus óculos e todas as palavras que conheço, tornar-me-ia um jegue mudo. Que é que tem? Então diria a ele “pronto, velhinho sujo, agora você tem tudo que eu podia dar, trate de caprichar nesse negócio”. Ao deslizar pela Mostardeiro, eu oferecia ao destino todos os meus pertences e faculdades em troca de uma aterrissagem que não nos transformasse em doadores de órgãos. Funcionava. O destino nunca pediu nada em troca, mas parecia levar em conta minhas sinceras intenções.
FONSECA não é meu autor favorito, isto não tenho. Mas é especial. Descobri-o ao 19 anos, por indicação de Eugênio Bortolon. Cada lançamento seu é precedido por rajadas da crítica, num frenesi de gente louca pra escrever “realmente, Fonseca já concluiu sua obra”, “...bem distante da força narrativa de Agosto...”, “...é lamentável que um autor dessa envergadura passe a escrever como seus imitadores de araque”, “... aos 80 anos, finalmente fracassou”. Daí o friozinho. Meu medo, que quero crer mais digno, soma-se à ansiedade funesta dessas hienas ávidas por uma carcaça da qual possam mascar a pele e roer os ossos.
ENQUANTO não descubro o que há nessa nova aventura de Mandrake, sigo com a barriga gelada como naquele antigo tobogã de asfalto. Derretendo pelo medo de me espatifar. E adorando essa expectativa em meus interiores.
G.M.
Devaneios, alguma literatura e desabafos...
quarta-feira, setembro 28, 2005
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3 comentários:
Aviso sim, Dani. Falamos. Beijo
Bom que temos essas lembranças siameas, Dani. O fato de você gostar das minhas parlavras é uma felicidade sincera e profunda. Pouca coisa na vida me acalenta mais. E não esquente com os ciúmes, não. Não era uma bobagem sua, mas uma bobagem reincidente do gênero humano, eu sentira o mesmo no seu lugar. Não se tratava de nós. Porque não era eu, já que eu nunca estive nesse papel em que você me via; nem você, já que não eram os seus olhos que assim me enxergavam. Era o cupido negro do ciúme, com sua flecha preta, que envenena e faz com que vejamos só o que ele quer, esse sacana. E tudo é recuperável, budy. Abraço,
Legal Dani, quero te conhecer quando vieres dar o ar da sua graça em Poa! Gosto dos teus comentários! By the way, sou uma "nova amiga de infância" da Tali e, conseqüentemente, do Gus.
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