Devaneios, alguma literatura e desabafos...

terça-feira, dezembro 06, 2005

Não penso mais que penso só

Semana passada. Ao encerrar uma entrevista política por telefone com o vice-governador Antonio Hohlfeldt, aproveitei pra tirar uma casquinha sobre literatura. Fanático pelo assunto, logo deixou a armadura metálica do cargo institucional e se transformou na versão intelectual de um moleque que discute freneticamente os melhores momentos do Brasileirão. Falou palavrões (quase inofensivos, tamnho o desuso, é verdade, coisas como bosta!, puta-merda!), trocou pronomes, errou concordâncias e conjugações, tive impressão de que se cuspia e até babava de tão empolgado, um negócio muito bacana essa mutação.

É de Hohlfeldt o prefácio à caprichada edição de “Música ao longe” , de Erico Verissimo, que saiu neste ano pelo selo da Companhia das Letras. Foi esse nosso pontapé inicial.

Descobri que, em termos de crítica literária formal, há nexo em duas das minhas “teses” sobre Verissimo.

Primeiro, trata-se de autor que deve ser avaliado pelo conjunto da obra, sem que se destaque um ou outro livro, exceto em casos de gosto pessoal. Os “lado B” de Verissimo, se é que existem, devem ser levados em conta com o mesmo peso dos olímpicos volumes de “O tempo e o vento”. Depois, sobre o estilo tépido, molenga, que num primeiro instante não entusiasma. Hohlfeldt concorda que esse quê impessoal foi uma opção do autor, que, com a obstinação de um maníaco, rabiscava à exaustão seus originais até encontrar essa linha de texto... incidental, eu acho, na qual os jogos com as palavras não se sobrepunham à grandiosidade das histórias narradas, sempre com densos acentos humanistas. Minhas “descobertas”, assim, têm eco no mundo acadêmico, do qual o vice-governador faz parte com uma invejável coleção de títulos. Fiquei contente ao saber que não penso só bobagens. E que não penso só.

G.M.

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